O projeto de extensão universitária “Dizer a sua palavra”, parceria da UFFS Campus Erechim com a Rádio Cultura e Jornal Boa Vista, começou com o objetivo de aproveitar um canal de grande presença na vida da comunidade de Erechim e provocar a reflexão sobre temas e situações de interesse regional. Inspirados(as) no patrono de educação brasileira, Prof. Paulo Freire, apostamos no “dizer a palavra”, que significa o reconhecimento das múltiplas expressões que nos fazem humanos(as).
Assim, a produção de textos semanalmente expôs contextos, ou seja, tentamos ver a cidade por outras formas. Mais do que um olhar, que é uma dádiva da natureza, ver é uma construção cultural. Por isso, cientes de nossa responsabilidade como educadores(as), buscamos colocar em evidência distintas possibilidades de (vi)ver a cidade.
Erechim vem crescendo e se firmando como importante centro econômico. Vivemos em meio a indicadores positivos e um debate permanente sobre a “falta” de pessoas para ocuparem postos de trabalho. Junto a isso, a presença de imigrantes, com destaque aos(às) venezuelanos(as), que têm marcado presença em muitas empresas da cidade. O salário médio perto do piso regional não é atrativo, fato que ajuda a explicar a rotatividade e o interesse/necessidade dos(as) estrangeiros(as) em situação precária em seu país de origem.
Temos uma forte cultura do valor do trabalho, tendo toda uma sustentação moral que perpassa a questão econômica. Muitas vezes, o acúmulo de riqueza material não se reflete em capital cultural, ou seja, na valorização de expressões artísticas, no hábito da leitura e na demanda por bens culturais diversos na cidade. Muitas pessoas estudam de forma pragmática, para ser uma “mercadoria” mais valiosa.
Nem sequer valorizam a vida universitária, vista com desconfiança por muitos e muitas que internalizaram a lógica do “horário comercial” e organizaram a vida para ter dinheiro (e só). Claro que o dinheiro é importante no sistema que vivemos, a questão reside na exclusividade dele no sentido existencial. Bolso cheio e cabeça vazia é uma combinação precária.
Escrever desacomoda. Escrever é uma ousadia, conforme escrevemos na primeira coluna “Educação e Cultura” publicada no Jornal Boa Vista. Mas ler e pensar é também uma tarefa fundamental. Nada do que escrevemos neste espaço é definitivo, tendo a pretensão de ser a última palavra. Ao contrário, nos interessa o diálogo e o exercício da dúvida, tão caro à ciência. Discordar com bons argumentos é um gesto civilizatório.
Então, ao nos ler, fica o convite a (vi)ver Erechim de diferentes formas. Nunca há só uma.
Entre aspas
Chegamos à coluna de número 40. Quatro dezenas de textos que procuraram “estranhar” esse “familiar” chamado Erechim. Nosso projeto segue explorando novas formas de ver a cidade, buscando um diálogo propositivo com leitores e leitoras do Jornal Boa Vista. Segue igualmente pelas ondas da Rádio Cultura, no programa Coletividade do Rafael Silva. Seguiremos dizendo a nossa palavra e escutando/lendo a tua.
Thiago Ingrassia Pereira
Professor da UFFS Erechim
Coordenador do Projeto de Extensão “Dizer a sua palavra”: democratização da cultura popular e da comunicação