A tela e a mente em desenvolvimento: reduzindo o impacto digital em crianças de 6 a 10 anos

Apedido

Solange Omizollo Mestura, Leise Olszewski Pomagerski,

Lilian Olszewski, Liliana Maria Rizzotto,

Roseli Petkovicz Wilk, Simone Solutchak

 

A fase dos 6 aos 10 anos, que abrange o Ensino Fundamental I, é um período de intensa expansão cognitiva e social. É quando a criança aprimora habilidades como a leitura, a escrita, o raciocínio lógico e a capacidade de interagir em grupos maiores, formando sua identidade e senso de responsabilidade. No entanto, o uso excessivo de telas nessa idade, muitas vezes sem a devida mediação e intencionalidade, pode se tornar um obstáculo pedagógico significativo.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) estabelece um limite de até 2 horas por dia de exposição a telas para essa faixa etária, sempre com supervisão e foco em conteúdos educativos. Ultrapassar essa recomendação pode gerar uma série de prejuízos que afetam o desempenho escolar e o desenvolvimento integral.

Prejuízos pedagógicos e comportamentais do excesso nessa fase, onde a aprendizagem formal se consolida, os impactos do uso não regrado das telas são notáveis:

– Dificuldade de foco e aprendizagem: Os estímulos rápidos e a recompensa imediata das telas (jogos, vídeos curtos) acostumam o cérebro a um ritmo acelerado. Isso torna atividades escolares que exigem concentração prolongada, como a leitura de um livro ou a resolução de um problema matemático, menos atraentes e mais difíceis de sustentar.

– Sedentarismo e problemas de saúde: O tempo sentado em frente às telas é tempo subtraído de atividades físicas essenciais. Isso contribui diretamente para o sedentarismo, aumentando o risco de obesidade, problemas posturais e de visão (como a miopia e a fadiga ocular), afetando o bem-estar físico que é base para o aprendizado.

– Prejuízo nas habilidades sociais: O convívio com os pares na escola é vital para desenvolver a empatia, a negociação e a gestão de conflitos. A preferência pela interação mediada pela tela, ou o isolamento nos jogos, empobrece a comunicação face a face, dificultando a construção de amizades sólidas e o entendimento das nuances sociais.

Interferência no sono: O uso de dispositivos eletrônicos, especialmente antes de dormir, prejudica a produção de melatonina, resultando em transtornos do sono. Uma criança que dorme mal tem seu desempenho cognitivo, memória e humor prejudicados no dia seguinte.

– Exposição a riscos e conteúdo inadequado: Sem a supervisão adequada, crianças nessa faixa etária estão mais suscetíveis ao cyberbullying, à exposição a conteúdos violentos ou sexualizados e a um senso de comparação irrealista nas redes sociais, gerando ansiedade e baixa autoestima.

 

Sugestões de troca: do consumo à criação ativa

O objetivo pedagógico não é abolir a tecnologia, mas sim garantir que a maior parte do tempo de lazer seja ocupada por experiências que exijam ação, pensamento crítico e interação social.

– Incentivo à leitura com livros físicos: A leitura regular de livros físicos vai além da alfabetização. É um poderoso estímulo cognitivo, que leva à ampliação constante do vocabulário, ao desenvolvimento da imaginação e à melhoria da compreensão de texto. Ao folhear páginas, a criança também exercita a atenção plena em uma narrativa mais longa.

– Jogos de tabuleiro e cartas: São ferramentas valiosas para o raciocínio lógico e o desenvolvimento social. Jogar exige estratégia, resolução de problemas e, acima de tudo, paciência para esperar a vez. São espaços perfeitos para a interação social, onde a criança aprende a seguir regras, negociar e lidar com a frustração da derrota de forma saudável.

– Clubes, esportes ou grupos de hobbies: Essenciais para o desenvolvimento social. Participar de esportes, aulas de teatro, música ou grupos de escoteiros incentiva o trabalho em equipe, a disciplina e o pertencimento. São ambientes estruturados para desenvolver habilidades sociais cruciais, como a empatia e a capacidade de colaboração.

– Criação de histórias e revistas em quadrinhos: Estimula a criatividade e a linguagem de maneira prática. Ao criar um roteiro, desenhar e sequenciar ideias, a criança exercita a expressão escrita e visual, aprimora a narrativa e consolida o raciocínio lógico necessário para organizar uma história do início ao fim.

– Experimentos científicos simples (com supervisão): Desperta a curiosidade e o pensamento crítico. Atividades simples como criar um vulcão de bicarbonato ou plantar um feijãozinho incentivam a observação, a formulação de hipóteses e a compreensão de como o mundo funciona, alimentando o interesse pela Ciência.

– Atividades físicas regulares: Benefícios motores e emocionais. Praticar exercícios físicos de forma regular é o principal combate ao sedentarismo das telas. Além de desenvolver a coordenação motora, libera energia, melhora significativamente a qualidade do sono e é um regulador natural do humor.

 

CONCLUSÃO

É crucial que pais e educadores criem uma “cultura de desplugamento“.  Isso significa estabelecer “zonas e tempos livres de telas” em casa (como durante as refeições e no quarto) e, principalmente, ser o modelo. Quando a criança vê o adulto lendo um livro ou praticando um hobby ativo, ela naturalmente se sente motivada a fazer o mesmo.

Ao mediar o uso da tecnologia e valorizar as atividades offline, garantimos que a criança desenvolva a capacidade de usar a tecnologia com propósito, em vez de ser usada por ela, consolidando um caminho de aprendizado mais rico e um desenvolvimento sócio emocional equilibrado.

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