O SANTO “GRAU” DE ERECHIM

Dentro da tradição do cristianismo católico, a lenda do Santo Graal[1], um possível cálice sagrado que teria sido usado por Jesus Cristo na última ceia, é revestida de uma aura misteriosa que é valorizada pelos fiéis. O elemento sagrado é o oposto ao profano[2], sendo historicamente utilizado como um “filtro” de valoração social. O Graal foi até parte de roteiro de filme a partir do livro de Dan Brown  “O Código Da Vinci” (1ª edição brasileira de 2004).

Longe de ser um cálice e de uma relação direta com a religiosidade, temos o nosso GRAU em Erechim.  Trata-se do Grupo de Resposta a Atendimento de Urgência, com a sede inaugurada em setembro de 2025. Parecia um presságio. O GRAU é um espaço que unifica entidades essenciais exatamente quando a população mais precisa. A Defesa Civil de Erechim e a Força Voluntária Alto Uruguai, Junto com a SAMU a e Ambulância Cidadã passaram a ter um espaço conjunto na Avenida Caldas Júnior.

Um pouco mais de dois meses após a inauguração[3] do GRAU, tivemos algo inédito na nossa cidade: na tarde de domingo, dia 23 de novembro de 2025, último dia da Expo Erechim, uma tempestade de granizo causou grande destruição. Foram poucos os minutos, mas as consequências foram enormes. Pedras de grande proporção caíram sobre a cidade que, atônita, buscou se proteger e, sobretudo, contar os prejuízos. Telhados de casas, escolas, hospitais e empresas destruídos, carros arrebentados e pessoas machucadas: o saldo do domingo a tarde foi a construção de um período de reconstrução.

Já no próprio domingo, depois de certa tomada de consciência do que tinha acontecido, a sede do GRAU passou a ser ponto de encontro de quem estava desencontrado em meio à busca pela lona para proteger o que tinha sobrado. A resposta à tragédia foi rápida o organizada. O trabalho articulado entre o poder público municipal, Defesa Civil e Força Voluntária garantiu o acolhimento possível das demandas.

Nem sempre o possível é o necessário. Na verdade, nunca estaremos 100% preparados a uma tragédia sem precedentes como foi o granizo deste novembro de 2025. Pelo volume de urgências, algumas não foram atendidas com a prontidão esperada por quem estava com a casa quebrada. Como em outras incidências, quem menos tem é quem mais sofre. Claro que o granizo não escolhe classe social, mas é bem diferente o tratamento do problema para quem tem e para quem não tem recursos, não só financeiros, mas até mesmo afetivos a partir de uma rede de apoio. Um cenário de urgência ataca nossa razão e nossa emoção. Não é fácil tomar decisões mediante a necessidade de proteger o que sobrou da casa.

A tempestade de granizo trouxe à tona setores invisibilizados na cidade. As filas para a retirada de telhas no Centro de Distribuição na Caldas Júnior não deixavam dúvidas: ali estava a cidade mais pobre e menos branca. É exatamente esse segmento que mais precisa do poder público, pois carece de recursos para remediar ou reconstruir. Junto à necessidade de telhas, transbordam outras necessidades: alimentos, móveis e até o transporte e mão de obra para a reconstrução.

Em meio à tragédia, muita solidariedade. O engajamento de pessoas voluntárias foi notável, assim como o apoio do Exército e das demais forças policiais de Estado. Corpo de Bombeiros, Brigada Militar, servidores públicos de todas as esferas, assim como empresas e seus funcionários se engajaram numa tarefa complexa. Quem sofre precisa de resposta imediata.

O Governador Leite esteve em Erechim, assim como o Governo Federal aportou recursos e deslocou a Defesa Civil Nacional. Contudo, um destaque à Prefeitura de Erechim que liderou de forma incansável todo o processo. Como escrevi acima, certamente algumas pessoas não tiveram possibilidade de ter a resposta mais imediata que precisavam, pois há limitações de recursos, materiais e mão de obra. Mas o poder público municipal, com a liderança do prefeito Pólis, buscou de forma permanente mitigar os inúmeros problemas decorrentes da tormenta do dia 23. Além, é claro, de fazer uma certa gestão de vaidades, pois, sabemos, na era das redes sociais tudo pode virar ostentação.

Há entulhos pela cidade, carros amassados e alguns telhados ainda com lonas em nossa paisagem urbana, lembrando que o meio rural também foi fortemente afetado. Não é fácil recomeçar, reconstruir, ainda mais sem os devidos recursos. A cidade ainda vive o trauma das pedras que caíram do céu, mas, sobretudo, temos que erguer às mãos aos céus em gesto de agradecimento por termos o nosso GRAU. O nosso “santo” GRAU de Erechim, sem o qual, a situação ainda estaria mais desafiadora.

Entre aspas

As atividades ainda seguem de distribuição de vouchers para telhas e para outras doações de alimentos e colchões. Agora no parque da ACCIE, seguem os trabalhos da Força Voluntária e demais entidades e pessoas voluntárias na distribuição de telhas. Qualquer coisa, vá no GRAU (av. Caldas Júnior, 597). A cidade precisa se reerguer sem deixar ninguém para trás.

Por: Thiago Ingrassia Pereira

Professor da UFFS Erechim

Coordenador do Projeto de Extensão “Dizer a sua palavra”: democratização da cultura popular e da comunicação

[email protected]

 

[1] https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-lenda-do-santo-graal/

[2] https://anthroholic.com/sacred-and-profane#google_vignette

[3] https://www.pmerechim.rs.gov.br/noticia/21294/erechim-inaugura-sede-do-grau-entrega-ambulancia-e-forma-18-voluntarios-da-forca-voluntaria-alto-uruguai

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