Entenda os motivos do calorão dos últimos dias no RS

Meteorologistas explicam fatores que intensificam as altas temperaturas neste período do ano no Estado, que normalmente já é mais seco e quente

Ondas de calor com pouca chuva e temperaturas acima dos 30ºC, como a que começou no Natal e que deve continuar até a virada para 2020, estarão presentes durante todo o verão. O fenômeno, garantem os meteorologistas, é normal, ainda que esteja, nas últimas décadas, mais frequente e duradouro.

Historicamente, o Rio Grande do Sul tem um verão seco, com menos nuvens e, consequentemente, maior radiação solar, o que gera altas temperaturas. A peculiaridade nesta temporada é que, ao contrário dos últimos seis anos, a estação conhecida por ser a mais quente do ano não terá influência de fenômenos climáticos de grande escala, como El Niño, quando chove mais durante todo o período, e La Niña, que deixa o tempo mais seco. No verão passado, por exemplo, o meteorologista Celso Oliveira, da Somar Meteorologia, recorda que o El Niño, apesar de fraco, foi responsável por verão e outono mais úmidos e menos quentes.

Por conta de um fenômeno chamado de Oscilação Decadal do Pacífico (variação das temperaturas do Oceano Pacífico, que pode durar até 20 anos), ora o Estado tem maior frequência de chuva e menos calor, ora tem um verão mais seco e quente. Neste ano, o verão será caracterizado pela segunda opção.

— O clima mais seco e quente do Rio Grande do Sul durante o verão faz parte de sua climatologia. Trata-se de algo normal em climas subtropicais: a chuva é bem distribuída quase o ano todo, com exceção do verão. É normal termos a condição que estamos enfrentando, o estranho foi a falta de calor dos últimos anos. A explicação está na mudança da posição da chuva no Brasil. Normalmente, chove bastante no Sudeste, Centro-Oeste e Norte, enquanto que na Região Sul, sobretudo no Rio Grande do Sul, tem tempo mais seco e ensolarado. Mas, por conta da Oscilação Decadal do Pacífico, percebemos aumento da chuva e diminuição do calor sobre o Rio Grande do Sul, enquanto que o Sudeste e o Centro-Oeste estão enfrentando calor e menos chuva. Lembro: a oscilação é natural. Trata-se apenas de um período em que há mudança do padrão climático que estamos acostumados — justifica Oliveira.

Fatores que intensificam o calor

Segundo a meteorologista Nicolle Reis, pesquisadora de ondas de calor, as altas temperaturas nesta semana ocorrem pela atuação de um sistema de alta pressão (que impede a formação de chuvas) no Oceano Atlântico. Na prática, a alta pressão na atmosfera impede que surjam nuvens no céu – sem elas, ficamos menos protegidos da radiação solar e o solo acaba ficando mais quente.

Entenda a onda de calor que afeta o Estado

 

O chefe do Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas (CPMET) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Leonardo Calvetti, reforça que o calorão também se deve à abertura de um corredor de calor vindo desde a região amazônica. Com a falta de frentes frias agindo sobre o Estado, esse corredor ganhou mais força.

— Os anos marcados pela falta de El Niño e La Niña são, historicamente, marcados por extremos. Ou seja, neste verão teremos baixa quantidade de chuva e temperaturas mais elevadas. A maioria dos modelos, até agora, indicam um verão com temperaturas acima dos 35ºC no Rio Grande do Sul — destaca Calvetti.

Coincidência ou não, o último verão sem El Niño ou La Niña foi justamente entre 2013 e 2014, quando várias datas foram consideradas as mais quentes dos últimos anos.

De acordo com a Somar Meteorologia, em números absolutos, Porto Alegre registrou sua maior temperatura em 1943, com 40,7°C. Nos anos mais recentes, a maior temperatura registrada foi em 6 de fevereiro de 2014, com 40,6°C.

Ondas de calor estão mais frequentes

Durante sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a meteorologista Nicolle Reis descobriu que as ondas de calor (dias com temperatura mais alta do que a média) estão se tornando, década após década, mais frequentes e duradouras. Ela analisou as temperaturas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste da década de 1980 até 2010. Na Região Sul, esse tipo de calorão é mais comum.

— Nos últimos anos, temos visto que essas ondas de calor estão se tornando mais frequentes, persistentes e intensas em decorrência do aumento da temperatura global. Dentre as hipóteses, além do aquecimento global, está a atuação do El Niño, que favorece a ocorrência de ondas de calor — afirma.

Dados da Somar Meteorologia indicam que, dos 10 dias mais quentes desde 1961 em Porto Alegre, cinco ocorreram a partir dos anos 2010 – os outros foram em 2005, 1994, 1970, 1694 e 1962. O maior registro ocorreu em fevereiro de 2014, quando a Capital sofreu com 40,6ºC.

Nicolle acrescenta que as altas temperaturas da última década são um indicativo dos efeitos da emissão dos gases estufa.

— Há uma forte relação com o aquecimento global. Anualmente, a Organização Meteorológica Mundial divulga que há dezembros e verões que são os mais quentes dos últimos anos — pontua.

Mas o meteorologista Celso Oliveira, da Somar, salienta que os extremos de calor ocorrem também por outros motivos, principalmente, nas grandes cidades:

— Em Porto Alegre, assim como em outras grandes cidades do mundo, o efeito da ilha de calor é mais marcado que o efeito estufa. Ou seja, o aumento da mancha urbana na Região Metropolitana deixa o solo mais concretado e contribui para temperaturas cada vez mais elevadas em todos os bairros, inclusive no Jardim Botânico, onde fica a estação.

Fonte: Zero Hora

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