Como foi chegar até aqui: A Tenda Branca, o lançamento

Baseado numa história real, o livro trata de amor, superação e a busca pela felicidade, onde quer que ela esteja

218

Por Salus Loch

 

Foram cerca de dez segundos de espera pendurados por um frio na barriga.

Quando o ‘sim’ veio, agradeci, respirei fundo e passei para a próxima pergunta.

O desafio estava lançado.

Assim, em meio à entrevista com Magdalena Guitta Wein e, após o ‘sim’ recebido – autorizando que aquela conversa tomasse outras dimensões – nasceu A Tenda Branca,  romance baseado na história de vida da guerreira Guitta, sobrevivente do Holocausto Nazista durante a II Guerra Mundial e que hoje, aos 89 anos, mora em Florianópolis/SC.

De lá para cá foram dois anos de pesquisas, viagens – intercalando Lima, no Peru, com o Litoral Catarinense –, incertezas, apoios sinceros, erros, acertos, escrita, escrita, escrita e aprendizados sobre a condição humana.

Não foi fácil, confesso.

Escrever não é fácil.

Mas, aqueles que escolhem tal caminho como ofício (no meu caso, o jornalismo) precisam ter coragem, e seguir.

A coragem, que perpassa a trajetória de Guitta, foi encontrada na magnitude da história que se revelou sem pressa à minha frente, nos seguidos encontros com a protagonista da obra.

E com este espírito, os obstáculos foram vencidos, um a um, até chegar aqui: o lançamento oficial de A Tenda Branca – que acontece neste sábado, 28, a partir das 15h na Livraria Bankath, no Master Sonda Shopping de Erechim, momento para o qual convido amigos e leitores deste espaço.

 

Busca pela felicidade, onde quer que ela esteja

A Tenda Branca, no entanto, é mais do que um passeio histórico por um dos momentos mais tristes e deprimentes da humanidade – o Holocausto, patrocinado pelo governo nazista, quando 6 milhões de judeus foram mortos, somando-se à eliminação de milhões de outras pessoas e categorias consideradas indignas de vida por Hitler e seus seguidores, nos quais destacavam-se comunistas, homossexuais, ciganos, testemunhas de Jeová, pessoas com deficiência e outras minorias.

A obra, no entanto, trata, fundamentalmente de amor, superação e a busca pela felicidade, onde quer que ela esteja.

Foi isso que fez Guitta seguir logo após ser separada para sempre de seus pais quando desembarcou em Auschwitz-Birkenau, numa manhã cinzenta do dia 6 de maio de 1944 – trecho do livro que faço questão de reproduzir aqui:

 

A separação

Era difícil saber quantas pessoas se aglomeravam no vagão. Cento e cinquenta. Duzentas, talvez.

Famílias inteiras se amontoavam num espaço que, aparentemente, não comportava nem metade daquela legião de homens, mulheres, crianças e idosos. Faltava espaço, sobravam incertezas.

À noite, a temperatura amena do dia abria espaço para o ar gelado que cortava as narinas e era incapaz de afastar o cheiro de urina e das fezes que, a partir do segundo dia, havia preenchido o local. Baldes faziam as vezes das latrinas. Peças de vestuário eram utilizadas para as mínimas exigências de higiene pessoal. Banho? Sem chance.

Pior do que aquele odor, só o cheiro do medo que acompanhava a todos.

Nas madrugadas, ombros, pernas e abraços substituíam as camas que as famílias haviam deixado para trás no trajeto entre o gueto e a escuridão. Não havia como escapar daquela sensação de impotência, sujeira e temor rumo ao nada.

No comboio de Guitta, um senhor de costas encurvadas e olhar cansado afirmava que eles estavam sendo transportados para uma fábrica de tijolos na Alemanha – onde a vida melhoraria. Ary, que àquela altura seguia grudado a Guitta, duvidou da informação.

– Ele não sabe o que está falando, emendou Ary. O rabino Isaac disse que estamos sendo levados para um campo nazista. Temo que ele esteja certo.

Guitta, até então, desconhecia o que seria um campo nazista.

O desembarque em Auschwitz-Birkenau, 72 horas depois, mostrou que o homem das costas curvas estava errado, e Ary certo. Infelizmente.

Às 5h54min do dia 6 de maio de 1944, Magdalena Guitta Wein chegou com a família no mais célebre e cruel campo de extermínio criado pelos nazistas durante a II Guerra Mundial, Auschwitz-Birkenau, no sul da ocupada Polônia.

Pai, mãe, os dois irmãos, quatro tios, três tias, cinco primos, os avós maternos e Ary desembarcaram com ela após a viagem que parecia não ter fim.

Enjoos. Solavancos. Angústias. Fome. Frio.

Com o trem parado no fim de uma linha precedida por luzes brancas e vermelhas ao longo de dezenas de postes que conduziam os vagões para Auschwitz-Birkenau, Guitta puxou o braço da mãe e, mais cedo do que deveria, comemorou.

A verdade é que não sabiam onde estavam nem o motivo pelo qual haviam sido levados àquela grande área descampada, com arames que cercavam o local e emprestavam ao ambiente um aspecto funesto em meio aos latidos dos cães.

Havia inúmeros barracões e alguns prédios com chaminés ao longe. Era tudo muito espaçado, bem maior do que o gueto, e trazia uma diferença peculiar. No ar, o cheiro que soprava com a brisa lembrava algo queimado. Forte. Amargo. Estranho.

Ao buscar amparo na mãe, a fim de saber o que era aquilo e onde haviam chegado, Guitta ouviu o que, desde os 13 anos, já se acostumara a escutar: é a guerra, filha. É a guerra. Ficará tudo bem. Fique de mãos dadas com seus irmãos e silêncio, por favor.

Com armas e chicotes em punho e gritos inteligíveis, soldados alemães fiscalizavam o serviço executado por prisioneiros de Auschwitz que empurravam os recém-chegados para fora do trem. À frente de Guitta um senhor que já deveria ter passado dos 80 anos caiu e se estatelou no chão ao descer. Um primo dela, Janus, foi tentar ajudá-lo. Não teve tempo. Um oficial da SS lhe desferiu uma coronhada que o fez apagar de pronto. Gotas de sangue do nariz do rapaz mancharam o vestido bege da mãe do próprio Janus, a menos de dois metros de Guitta. Aturdido, o pai do jovem pegou o filho no colo em silêncio, enquanto a mãe continha o choro. Ambos pareciam entender   que manter a boca fechada era o melhor a fazer.

Ao mesmo tempo, outro oficial da SS, com uma grande cicatriz abaixo do olho direito, se dirigiu para o velho caído, o agarrou pelo braço e o fez ficar de pé.

Com o olhar, o pobre senhor parecia suplicar. Parecia pedir perdão por sua fraqueza. Por sua idade. Por atrapalhar a fila que estava sendo formada.

Foi inútil.

O tiro que atravessou o lobo frontal fez o corpo desabar sem força. Disforme. Apagado.

O estampido da bala cortou o ar e deixou ainda mais cinza aquela manhã.

Horrorizados, os grupos próximos mesclaram gritos abafados com choros, gemidos e suspiros.

Guitta passou pelo filete de sangue que se formara ao lado do corpo inerte do velho, mas não teve coragem de fitar a cena. Estremecida, segurou firme a mão do pai e do irmão mais velho. Logo atrás, ouviu a irmã soluçar e se virou no momento em que a mãe acariciava os cabelos da pequena. Ela já havia perdido Ary de vista – que fora arrastado para uma fila separada.

– Me aguarde Guitta, vou voltar para te buscar, gritou o rapaz numa última tentativa de contato, que não teve resposta.

Súbita e definitivamente, o pai e o irmão de Guitta também foram empurrados para uma fila distante. Daquele momento em diante jamais voltaria a abraçar o pai e o irmão, nem o avô, primos ou os tios que tomaram o mesmo caminho. Na fila de Guitta restaram apenas as mulheres, incluindo sua mãe, a irmã, a avó, primas e tias.

Aos empurrões, Guitta ainda tentou voltar para perto do pai, mas foi repelida por um soldado que a chamou de vadia, ou algo do tipo. Vencida pela ameaçadora postura do oficial, manteve contato visual com Sandor, e conseguiu ouvir a mãe dizendo: volte para o seu lugar, querida. Vai ficar tudo bem.

Tentando não perder o pai de vista enquanto as filas se afastavam, Guitta lembrou da festa de 70 anos da avó Patrícia, dois anos atrás, às margens do Mar Negro, no litoral romeno, com direito a banho de lama medicinal e comida farta. Aquela havia sido a última vez que estavam todos reunidos para festejar. A felicidade era genuína. E saudosa.

Depois veio o Gueto. O confinamento. Os choros. A insegurança. O trem. O frio. A fome. A coronhada no Janus. O velho morto. A iminente separação.

Parecia tudo tão rápido, e triste.

Com os olhos marejados, ela queria acreditar que as palavras da mãe fossem verdadeiras. Que ficaria tudo bem.

Acabou perdendo o pai e voltou-se para a mãe e a irmãzinha, que haviam ficado cinco passos atrás na fila. Retornou para perto delas e logo em seguida foi indicada, por ordem de um homem alto e de aparência soturna – mais tarde descobriria que o nome do médico era Josef Mengele –, para ingressar numa nova fila. Desta vez, porém, as únicas que lhe acompanharam foram as primas, Henrieta e Maria, e a tia Cinca.

Guitta buscou a mãe e a irmã com os olhos e a primeira lhe retribuiu sorrindo com lágrimas que desciam devagar num rosto ainda bonito, mas marcado por rugas que haviam se multiplicado nos últimos meses. Rosália deu um breve adeus com a mão direita. A irmã, no colo da mãe, lançou em direção à Guitta um beijo, que fez sua diminuta boca parecer um pequeno pirulito em forma de coração.

A cabeça de Guitta girava. Ela chorava. Queria voltar para perto de Eva. Abraçar a irmã e a mãe. Deu um passo na direção delas e foi violentamente impedida por mãos fortes e enluvadas que seguraram seus ombros. Então ouviu alguém, ao longe, chamar seu nome. Era Sandor, seu pai. Procurou pelo destino da voz e viu a mão dele erguida. Ela viu também o espanto escancarado nos olhos do homem que fora sempre tão forte. Mesmo aos empurrões, ele fez um meneio com a cabeça, como que encorajando a filha a continuar.

Glen, que seguia anotando tudo de cabeça baixa num misto de indignação, sofrimento e raiva, de repente, sentiu a sala silenciar.

Encarou Guitta e viu que os olhos da entrevistada estavam úmidos e a boca formava uma parábola negativa e triste.

Ao redor da mesa todos estavam emocionados. O sonho que o jornalista tivera na noite anterior era real e mais triste do que imaginava – especialmente pelo desfecho que acabara de transcrever.

Depois de uma longa pausa, e de um suspiro que mais parecia um grito de dor vindo da alma, Guitta continuou.

– Não houve despedidas naquele dia. Apenas tive tempo de abanar de volta para minha mãe e para Eva, e rezei – esperando que, de alguma forma, conseguisse cumprir a promessa de jamais me separar de Eva. Também procurei pelo papai e não o vi mais. Fiquei atordoada e desesperada. Esperava que pudesse voltar a vê-los logo.

Isso, porém, jamais aconteceria.

 

 

A entrevista

Aproveito o espaço para reproduzir, também, trechos da primeira entrevista com Guitta, em setembro de 2015 – momento no qual surgiu a ideia de escrever o livro.

 

Perseguição

‘O clima hostil sentido desde o início da Segunda Guerra, para nós judeus, não era novidade. Porém, as coisas foram piorando com o tempo. Não era mais questão apenas de estudar numa escola separada dos cristãos, ou vestir roupas com uma estrela amarela. Bem que pessoas ligadas aos alemães avisaram nossa família para fugirmos enquanto era tempo. Não levamos a sério. Resultado: acabamos no gueto de Satu Mare, na Romênia, logo depois do ano novo de 1942. Nossa grande casa no centro da cidade, que antes era ocupada apenas por nós cinco (Guitta, o pai, a mãe, e os dois irmãos), ficou para trás e passamos a dividir, no gueto, uma casa com outras seis famílias. O conforto se foi; o medo apareceu. Meu pai, minha mãe, meu irmão mais velho e eu fomos obrigados a fazer trabalhos forçados, e olha que eu não tinha nem 15 anos na época. Foi uma reviravolta gigante em nossas vidas. Naquele momento parecia que eu havia perdido tudo: a liberdade, a infância, o futuro. Mas o pior estava por vir: Auschwitz-Birkenau’.

 

Trabalhos forçados

‘Entre os diversos tipos de trabalhos forçados aos quais fui submetida durante o período da guerra, fiquei com várias marcas e lembranças. Certa vez uma fábrica, na qual trabalhávamos na reconstrução, foi bombardeada. As bombas começaram a explodir ao nosso redor. Escapei da morte por milagre. Foi um choque incrível. Porém, nem bem me recompus do pavor e tive que recolher os corpos daqueles que morreram no ataque. Éramos descartáveis, mera mão-de-obra barata nas mãos dos alemães. Eu, todavia, trabalhava direitinho porque só assim tinha uma chance de permanecer viva. Naquela época ainda tinha esperança de rever minha família. Só fiquei sabendo da morte deles quando voltei para a Romênia, no fim da guerra’.

 

O caminho das Américas

‘Atravessamos a Europa no fim da década de 1940 e chegamos a Lima, no Peru – onde uma prima do meu marido já estava estabelecida. Lá, comecei uma vida nova e pródiga. Abrimos, numa garagem, uma fábrica de confecções. Eu saia vender os produtos nos povoados e vilas da capital peruana. Hoje, o empreendimento é uma multinacional. Sinto orgulho disso, embora esteja, involuntariamente, afastada dos negócios. Sinto orgulho de ter construído algo grande praticamente do nada, mostrando aos nazistas que nos tratavam como animais que, com força de vontade e trabalho, se podia – e ainda se pode, claro – fazer muita coisa boa e com resultados positivos, seja no aspecto financeiro, seja no campo da realização pessoal’.

 

Felicidade

‘Se os negócios com a empresa iam bem, no campo afetivo algumas coisas mudaram. O tempo passou e a relação com meu marido esfriou. Acabei deixando Lima e a empresa para trás e vim residir em São Paulo com um novo amor. Um italiano que me conquistou ainda em Lima. Nossa vida no Brasil foi boa, posso dizer. E hoje, com ambos os homens da minha vida mortos, estou aqui, em São José, Santa Catarina morando perto da minha filha e de uma das minhas netas, já que a outra mora na Guatemala (no dia da entrevista, a neta ‘guatemalteca’ estava visitando a mãe e a avó, no Brasil). Elas são minha razão de viver, e é por isso que afirmo: hoje, tenho perto de mim tudo o que eu preciso. Poderia ter sido diferente? Claro que poderia, mas não foi. A Guerra deixou marcas, é óbvio, mas consegui me levantar. Você pede para que eu deixe uma mensagem para quem for ler essa nossa conversa. Escreve aí, então: temos que correr atrás dos nossos objetivos, não importa a idade ou a situação na qual possamos nos encontrar. A vida é valiosa demais para abrirmos mão de nossa liberdade e de nossos sonhos. Seja feliz, não importa onde nem com quem. Gostou?’.

Gostei.

 

Gratidão

É preciso agradecer, ainda, aos parceiros nesta jornada – com destaque para meus pais, Valdemar Artur e Marilene Loch; Guitta e seus familiares; além dos amigos Alcides Mandelli Stumpf (que assina o prefácio da obra) e Nilson Luiz May, proprietário da editora Scriptum Produções Culturais, de POA – que acreditou na proposta.

À autora da capa, Ananda Kuhn (minha prima), ao Varella, da Gráfica All Print, aos colegas de imprensa pela divulgação graciosa e a Marilene Rigo e diretores do Caol (entidade com a qual  fiz parceria para destinar um percentual de cada livro comercializado), estendo minha gratidão. Obrigado, de coração.

 

O primeiro livro

Com a proposta de divulgar a história de Guitta e alertar para os riscos do pensamento reacionário/sectário, tenho realizado palestras em Erechim e região. Numa destas oportunidades, a convite do amigo Neivo Fabris, participei esta semana de bate-papo no Colégio Estadual Antônio Scussel em Getúlio Vargas. E lá algo gratificante aconteceu. Ao final dos colóquios, o jovem William, de 16 anos, chegou ao meu lado, adquiriu um exemplar da obra, e tascou: ‘depois de ouvir a história, confesso que este é o primeiro livro que tive vontade de comprar’. Emocionei-me com William; torço que seja o primeiro de muitos – de ambos.

Você pode gostar também

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.