Ciclistas de Erechim concluem os 1200 km do SulBR1200, entre RS e SC, e fazem história

Ouvimos o relato dos dois participantes locais na prova, Paulo Berres e Everton Barbieri – que narram os detalhes, as dificuldades e as estratégias necessárias para superar o desafio. Em 2019, dupla deve repetir a dose, e levar a bandeira de Erechim para o Arco do Triunfo, na Capital francesa

Quando apontou com sua bike no ‘Túnel Verde’, trecho de 3000 m na RS 040, próximo à Cidreira/Litoral Norte do RS, um filme veio à cabeça do consultor de marketing, Paulo Roberto Berres.

Embora naquele momento já tivesse percorrido 1000 km de um total de 1200 km previstos para concluir a prova do SulBR1200 (evento reconhecido pela principal entidade de ciclismo do mundo, a Audax Club Parisien/ACP), o erechinense deixou para trás o cansaço das mais de 80 horas de pedal.

Berres sentiu-se transportado à infância, quando o ‘Túnel Verde’ indicava que ele, seu pai e sua mãe, estavam chegando à praia, a fim de conhecer pela primeira vez o mar e curtir as férias de fim de ano.

– A recordação me deu ainda mais forças para concluir a prova, especialmente depois do contratempo que tive, minutos antes, com dois raios da roda traseira quebrados. De repente, naquele ambiente marcado pela natureza, esqueci a dor, a fadiga e lembrei os momentos de guri; de tudo o que havia passado até ali. Nas minhas reminiscências, encontrei a determinação necessária para apertar o ritmo. Tive a certeza de que somos, cada um de nós, mais fortes do que achamos, conta Paulo.

Já Everton Barbieri revela que esperava ansioso pela participação em mais uma aventura de longa distância sobre duas rodas. Em 2017, o fisioterapeuta realizou seu primeiro grande evento de 1000 km, indo de Bagé, no RS, a Punta Del Leste, no Uruguai. Tanto a prova do ano passado quanto o SulBR1200, que cortou cidades do RS e de SC, testaram os limites do ciclista.

A experiência numa prova de longa distância contribuiu para o sucesso na nova jornada, dando segurança na hora de definir as estratégias e na execução das mesmas. ‘Tracei minhas metas por dia de prova. Felizmente, funcionou’, conta Barbireri.

Os testemunhos são um resumo do desafio vencido pelos erechinenses – que ao lado de 33 ciclistas (entre os 42 que largaram) cruzaram a faixa de chegada do SulBR1200, realizado entre os dias 17 e 20 de outubro.

Com Berres e Barbieri, demais competidores locais – em trabalho de equipe – também fizeram história e venceram as barreiras físicas e mentais impostas pela prova. Foram eles: Vernei Gaiki (Passo Fundo); Fabrício Ferrari (Marau); e Adolfo Trevizan (Paraí).

O grupo, cada qual com sua história, vivência e aprendizado, mostrou que a raiz do sucesso demanda foco, disciplina, resiliência e estratégia. A seguir, sob o olhar de Paulo Berres e Everton Barbieri, conheça, dia-a-dia da participação de ambos no SulBR1200:

Dia 1 – 17/10/2018 – Largada/Acqualokos (trecho percorrido 343 km)

A largada foi no Hotel Milão em Porto Alegre, na Avenida Assis Brasil, às 5h. O trajeto do primeiro dia foi de 343km, passando pela serra gaúcha (Gramado – 22km de subida contínua, Canela e Cambará do Sul) chegando por volta da meia-noite ao destino, o Hotel do Acqualokos em Curumim. A relargada se deu no dia seguinte, às 5h novamente, o que significa dizer: o tempo de sono foi de aproximadamente 3h apenas. Pouco para recuperar o difícil trajeto. Ser um Randonneur (ciclista de longa distância), exige muito do atleta.

Dia 2 – 18/10/2018 – Acqualokos/Garopaba (338km)

Saída às 5h, com destino ao Lobo Hotel, na praia de Garopaba, litoral de Santa Catarina. Devido ao pouco tempo de descanso, o sono bateu e Berres optou por dormir durante 40 minutos em um dos PCs (Ponto de controle, no caso, um posto de combustíveis). O grupo do qual o erechinense fazia parte seguiu. Sendo que todos se reencontraram no km 463, em Meleiro, pedalando juntos até Garopaba.

Dia 3 – 19/10/2018 – Garopaba/Osório (315km)

Como havia dormido pouco no dia anterior, Berres mudou a estratégia e decidiu ficar mais tempo na cama, saindo apenas às 7h do hotel, duas horas mais tarde do que a maioria do pessoal (inclusive Barbieri). Neste dia, os ciclistas enfrentaram muita chuva e vento ‘contra’, dificultando um melhor desempenho e puxando ‘para baixo’ a média rodada. Berres andou sozinho desde a largada em Garopaba até Osório, onde chegou por volta das 2h. O cansaço proporcionado pelo vento havia castigado o cliclista local. Justamente por isso, em muitos momentos ao longo do dia, devido a dor e cansaço, Berres reconhece que o cérebro ‘cobrava’ para que ele abandonasse a prova. ‘Foi quando decidi não atentar para os sinais e simplesmente ignorar a dor e cansaço e seguir em frente’, conta. Para ele, o psicológico é 80% da prova.

Com a mesma lógica, ao final do dia 3, Barbieri, que se acostumara a ‘conversas solitárias’ com seus joelhos, comemorou o fato de que a bandeirada estava há cerca de 200 km de distância com dois copos de caldo de cana gelado e uma torrada tripla de salame e queijo num pão caseiro gigante.

Dia 4 – 20/10/2018 – Osório/Porto Alegre (206km)

O último dia foi tenso, especialmente pela vontade de concluir a prova e voltar para casa. Apesar de a distância percorrida ser menor, Berres acabou tendo – antes de chegar ao ‘Túnel Verde’ – dois raios da roda traseira quebrados, fazendo com que tivesse que procurar um mecânico, justamente em Cidreira. Apesar de ter o problema corrigido, ali perdeu 1h30min, que poderiam colocar em risco a conclusão da prova, eis que a disputa dos ciclistas é contra o relógio. Era hora de apertar o ritmo, e foi o que Berres fez, tanto que conseguiu alcançar ‘seu grupo’ no km 996, em Capivari do Sul. De lá, seguiram juntos até a chegada, no retorno ao Hotel Milão, em Porto Alegre. ‘Durante o trajeto, devido ao desgaste físico e pelas dores, chega uma hora que não há mais posição confortável na bike. As dores tomam conta e o cansaço começa a incomodar muito. Mas com resiliência e buscando alternar as posições na bike, conseguimos concluir com êxito e nenhum acontecimento mais grave, todo o percurso’, completa para emendar: ‘Ahhh, a chegada foi emocionante’.

Como surgiu o maior Randonneur no sul do Brasil

Há tempos existia a vontade entre os randonneurs de realizar um evento do calendário LRM (Les Randonneurs Mondiaux no Brasil), mais especificamente no Sul do país. Em 2016, o representante da ACP Brasil e atual presidente do Randonneurs Brasil, Roberto Penna Trevisan, convidou um grupo de ciclistas a fim de apresentar estudo de rotas para realização da prova. Inicialmente um pequeno grupo aceitou o desafio de trocar ideias, discutir e avaliar as possibilidades. A este grupo de Randonneurs foram convidados a tomar parte todos os clubes do RS (inclusive o Audax Erechim, presidido por Paulo Roberto Berres) e de SC formando uma comissão organizadora com o propósito de viabilizar o evento.

Nasceu, assim, o LRM SulBR1200 com uma característica peculiar: uma prova pensada e idealizada de Randonneur para Randonneur.

Bandeira de Erechim no Arco do Triunfo

Concluir os 1200 km do SulBR1200 é um feito para poucos, sem dúvida. No entanto, a equipe de atletas de Erechim e região não pretende parar por aí. A meta, agora, é cumprir os requisitos necessários (ou seja, participar de provas ‘qualificatórias’ de 200, 300, 400 e 600 km entre novembro de 2018 e junho de 2019) para que o grupo garanta participação no LRM Paris-Brest-Paris, realizado a cada quatro anos na França.

O trajeto tem os mesmos 1200 km do SulBR e deve reunir mais de 8 mil ciclistas de todo o mundo entre os dias 18 a 22 de agosto de 2019. Os custos para a participação destes eventos, no entanto, são altos (treinamento, equipamentos, alimentação e a própria inscrição) o que faz com que Berres e Barbieri estejam em busca de empresas parceiras.

Caso Paulo Berres e Everton Barbieri cheguem lá, serão os primeiros representantes de Erechim a marcar presença no mais tradicional evento dos Randounners em todo o globo. A dupla, aliás, projeta colocar a bandeira de Erechim em cima do Arco do Triunfo, na Capital francesa.

Decididamente, pedalar também é fazer história.

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