Memórias da Aldeia – A viagem

Corria o ano de 1959. Minha mãe, juntamente com minha irmã e eu, resolveu ir visitar a tia Claudina, que morava a cerca de oito quilômetros de nossa casa, no município de Gaurama. Fomos a cavalo – e fomos fazendo o revezamento.
Passávamos em frente da Igreja Nossa Senhora da Saúde de Balisa quando vi uma inscrição: “Salve a tua alma”, minha mãe, fez o sinal da cruz e prosseguimos viagem, com paradas breves para conversar com os parentes e conhecidos.
Estrada pedregosa, cheia de poeira, subidas e descidas perigosas. O cavalo tropeçava com bastante frequência. Minha mãe nos consolava dizendo que na vida “era necessário fazer sacrifícios….”
Chegamos num rio caudaloso, de águas límpidas, com uma pinguela muito bonita, por onde fizemos a travessia. Um parente nos auxiliou e conduziu o cavalo pelo rio. O animal bebeu água com invulgar sofreguidão. Faltava mais um quilometro. Ficaram admirados pela nossa “aventura” e nos serviram água e frutas.
O sol de verão das 10 da manhã castigava, e eu comecei a choramingar ouvindo os xingamentos da irmã que dizia: “Eu não disse que esse piá ia incomodar?”.
Finalmente chegamos. Alegria indesmentível. Toda a família do tio Vitório nos acolheu como uma ternura indescritível. A tia Claudina, era irmã da minha mãe.
Lá permanecemos vários dias, fazendo melado, rapadura, açúcar mascavo, num clima de reverência e confraternização, que nunca mais me saiu da cabeça.
Visitar os parentes tinha um ar de sacralidade, respeito e devoção… Tínhamos nossos ritos cotidianos que nos davam enorme conforto de alma. O filó surpresa para degustar um brodo… As rapadurinhas da avó, que esperávamos com incontida ansiedade… O culto na Igreja de Balisa… As bolitas e espelhos que comprávamos no Nereu…O jornal Correio Riograndense, que o Laurindo, trazia… O time do Clube União, que ia jogar e era conduzido por João Dal Molin… As ladainhas rezadas pelo Eliseu… Os colegas que já não estão… Os namoricos inocentes e as primeiras danças ao som do Jazz Garoa de Ouro… Jazz Moron e Jazz Alvorada de Gaurama.
É por essas e outras que jamais quero esquecer minha infância simples, bonita e sublime. Os surtos severos de saudades ajudam a viver.

 

Por Enori Chiaparini

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