As bibliotecas e os museus deveriam ser uma espécie de igreja

I – Inicio a coluna desse mês esclarecendo que tenho profundo respeito pela liberdade religiosa. Dito isso, informo que não é a minha intenção criar polêmica sobre a pertinência das religiões, tampouco pretendo sustentar o argumento de que as bibliotecas e os museus são habitados por deuses em forma de livros e obras de arte. O objetivo é bem mais modesto. Utilizo a expressão “igreja” justamente porque quero mobilizar o seu significado de espaço sagrado, pois entendo que esse valor deveria ser atribuído às bibliotecas e aos museus, por tudo que representam em termos da nossa capacidade de produzir, armazenar e disseminar a ciência, as letras e as artes.

II – Nas últimas semanas, enquanto não vagava uma mesa na sala que abriga os investigadores visitantes no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, tive a oportunidade de trabalhar nas instalações de uma das biblioteca da instituição, a Biblioteca Norte/Sul, cercado de livros, periódicos científicos e pessoas. Vivenciar o dia a dia dessa biblioteca tão emblemática para as Ciências Sociais foi uma experiência fascinante. A proximidade dos livros, o ambiente silencioso e a vista de Coimbra pelas janelas transformaram meus primeiros dias na cidade inesquecíveis. A Biblioteca Norte/Sul já faz parte das minhas memórias afetivas e tem contribuído para as minhas reflexões sobre o papel das bibliotecas nas universidades e na sociedade.

III – Os primeiros momentos em Coimbra também foram de reconhecimento da cidade e de visita aos museus, como o Museu Nacional Machado de Castro e o Museu de Ciência da Universidade de Coimbra. Ambos ficam localizados nas dependências da universidade e apresentam uma beleza que inspira e encanta. No caso do Museu Nacional Machado de Castro, é possível encontrar a arte produzida no período do Império Romano, passando pela arte sacra característica da Idade Média, até chegar ao acervo que retrata Portugal nos últimos cem anos. Museus são uma espécie de “história materializada”, que dá sentido àquilo que se ouve na escola e se lê nos livros de história. Ademais, tive a oportunidade de conhecer a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, que é um misto de biblioteca e museu. A Biblioteca Joanina é considerada uma das mais importantes da Europa, dada a quantidade de obras raras que o espaço abriga. Os museus de Coimbra estão recheados de histórias e personagens, o que nos permite perceber o óbvio: vivemos um período determinado da história das sociedades humanas e, assim como os anteriores, o nosso terminará um dia.

IV – No Brasil temos subestimado a importância das bibliotecas e dos museus. Isso é um fato triste, mas real. Em um período no qual alguns tratam de legitimar a censura às manifestações artísticas, como ocorreu recentemente em museus de Porto Alegre e de São Paulo, e livros são considerados instrumento de “doutrinação política e ideológica”, torna-se ainda mais importante reafirmar a importância da ciência, das letras e da arte para uma sociedade menos obscura e mais plural. A Europa já se deu conta disso há muito tempo, por isso as bibliotecas e os museus são tão valorizados por aqui.

V – E se as bibliotecas e os museus fossem como igrejas, locais “sagrados” para a construção de um mundo melhor? Quando seremos capazes de apresentar as bibliotecas e os museus às crianças como um dos lugares mais importantes das cidades? Fico imaginando o dia em que um pai convidará o seu filho para um passeio no shopping e o filho responderá que não pode, porque marcou de ir ao museu com os amigos e depois precisará passar na biblioteca da escola para ver os livros novos que chegaram durante a última semana. Desejo fortemente que esse dia não demore.

Outras Palavras

  • Estive em Madri no final de semana passado e fiquei impressionado com a suntuosidade da cidade. A capital da Espanha conta com muitos monumentos, parques e praças (destaque para os Jardins do Retiro). Tudo é muito limpo e bem cuidado. Comparar países tão diferentes quanto Espanha e Brasil sempre tem seus limites, mas, em termos de cuidado com as cidades, os espanhóis nos vencem de goleada.
  • Assisti a uma partida do Campeonato Espanhol de futebol no domingo passado em Madri, entre Atlético de Madrid e Levante. O time da casa venceu por 3 X 0, com direito a um golaço de Griezmann, principal jogador da equipe. Fiquei com a sensação de que poucos jogadores da dupla GreNal teriam condições de defender o Atlético de Madrid. Mesmo Luan, eleito o Rei da América em 2017, teria dificuldade em se firmar na equipe da capital espanhola.
  • Definitivamente a comida portuguesa é melhor que a espanhola. Em Madri se come muito as tais de “tapas”, que são um tipo de sanduíche aberto. Não chega a ser ruim, mas não vi nada de especial. Nas regiões litorâneas da Espanha você pode encontrar a famosa Paella, mais adequada ao meu paladar. Já em Portugal o cardápio é mais variado, com destaque especial para os pratos com bacalhau e peixes. Isso faz toda a diferença. 

     

    Por Luís Fernando Santos Corrêa da Silva

    E-mail: lfscorrea@gmail.com

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