Rita Salgueiro: uma vida dedicada ao circo através de cinco gerações

A família circense está em Erechim

“Minha casa, minha vida é o circo. Quero morrer fazendo o que amo”. Assim, Rita Salgueiro, ou Sandra Sundpeterson, externa o seu carinho incondicional pelos 52 anos de trabalho no picadeiro. Rita, aos 66 anos, é a terceira geração de artistas circenses.

A história começou no Mato Grosso, na região pantaneira de Bela Vista.  “O circo é nômade, está sempre na estrada e passou na minha cidade. Logo me encantei e aos 14 anos fui embora com ele. Três anos depois casei com um circense, de família tradicional, Salgueiro”, conta Rita.

A história resume uma família que traz no sangue a estirpe  de quem nasceu para o espetáculo, para levar alegria e entretenimento ao público, algo que ocorre desde 1939.  Inicialmente, chamava-se Circo Teatro Vamos Rir, um circo pequeno com cerca de 28 metros, coberto de pano, que comumente era chamado de ‘pau fincado’, em função das madeiras que eram fixadas no seu entorno.

“Sou do tempo em que mudávamos de cidade de carroça, morávamos no que chamamos de ‘baiucas’, um fechadinho, parecido com uma barraca. Sem contar que realizávamos muitas viagens para carregar tudo o que precisávamos. Não tínhamos cobertura impermeável, se chovesse não podíamos trabalhar”, relata.

Tudo começou com Walmor Cabral Salgueiro e Helena

Quinta geração de artistas

Entre trapézio, escada giratória e acrobacias, onde começou sua trajetória, Rita não esconde sua preferência, o balé aéreo. Ao lembrar-se dos números apresentados, ela sorriu e seus olhos brilharam. Aos poucos o circo foi se reinventando e ganhando outros nomes, Águia, Magic e atualmente, Rhoney Espetacular, uma homenagem ao seu pai, ao marido que faleceu há pouco tempo e seu filho, todos levam o nome Rhoney.

Hoje, a família Salgueiro já está na quinta geração de artistas, seus três filhos e netos já se incorporaram ao picadeiro. Os pequenos ainda timidamente, mas com sangue e alma circense já imitam os pais, tios, primos e assim, o legado vai se perpetuando.

Rhoney, pai e filho, que dão nome ao circo

“Minha casa é o circo. É a minha vida”

“A família cresceu muito num comparativo com 40 anos atrás. Hoje, trabalhamos com 15 pessoas da família, aliando a experiência dos mais velhos com a habilidade tecnológica dos jovens. Temos residência física em Curitiba, mas costumo dizer que eu moro no circo. Minha casa é o circo, é a minha vida”, salienta.

Rita é uma ex-atleta em função das sequelas provenientes de lesões sofridas ao longo dos anos. “Na minha época era tudo na força, raça, pois ensaiávamos muito. As lesões são decorrentes do trabalho duro, falta de aquecimento e alongamento. Hoje, os exercícios são regrados e todos fazem”, afirma.

“Rita acompanha os ensaios, repassa técnicas e ensinamentos”

Rita deixou o picadeiro, mas não desgruda os olhos dos filhos e netos um dia sequer.

É ela que acompanha os ensaios, repassa técnicas, ensinamentos e ainda cuida do bar e netos quando todos estão se apresentando. Dois dos seus filhos nasceram na ‘barraca’, como se refere ao falar que foi no circo.

“Meus filhos carregam no sangue o amor pelo que fazem. Os meninos dedicam-se ao globo da morte que se divide em duas partes e minha filha é uma excelente palhaça. Da família só ela tem a luz que o palhaço precisa, os trejeitos e por vezes, ela até esquece que não está atuando. O vô dela foi um grande palhaço, o Lambari”, lembra.

“Crescemos sabendo que nossos ídolos, super heróis, são os pais, tios e primos”

Elenice Vera Salgueiro, a palhaça Pipinoviski, é só alegria e bom humor. “No palco esquecemos os desentendimentos e só abrimos espaço para o sorriso. Buscamos dar o melhor para receber o melhor, esse gostinho alimentamos desde pequenos. Nossas brincadeiras eram no trapézio, subir na tábua e tentar se equilibrar igual ao tio. Crescemos sabendo que nossos ídolos, super heróis, é o pai, mãe, tios e primos. Passamos a infância imitando, tentando fazer igual.

Na escola, quando chegávamos ou, assim que mudávamos de cidade, logo os colegas diziam, ‘aquela menina é do circo’ e nós, nos sentíamos o máximo. Convidávamos os colegas depois da aula para ir até o circo e apresentávamos o nosso espetáculo, imitando o que tínhamos aprendido”.

Ela ainda comenta que “as leis tiraram o direito dos pais de educar seus filhos, de levar junto no trabalho. Penso que a crianças devem aprender desde cedo, não quero dizer que precisam se esforçar, mas é preciso mostrar o caminho, o prazer pelo o que se faz. Com isso, a criança vai querer fazer também, pois percebe o quanto aquilo te faz bem, feliz”, destaca.

“No picadeiro as cores aparecem, brilham, é mágica”

Charlize é neta de Rita, formou-se em Publicidade e Propagando, mas nunca abandonou o palco e os malabares. Ao contrário, é ela quem faz toda a divulgação e material institucional do circo e ainda, mostra destreza em números dinâmicos e ritmados. “O circo encanta, diverte e ainda ensina o quanto é bom ser circense, aprender um ofício. É claro, a vida de um artista de circo nem sempre é colorida,  em 2011 enfrentamos uma enchente em Iraí. Nossas carretas flutuavam e um pedacinho da história, papeis, documentos, foram destruídos.

Aos poucos fomos nos reerguendo, pois embaixo da lona, no  picadeiro as cores aparecem, brilham, e essa é a mágica”, finaliza.

Por Carla Emanuele

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