Tinha um bombom no meu caminho

Dar aula tem sido algo desafiador à minha carreira profissional, pelo menos para mim que sou preocupada com a formação do aluno e o quanto o que digo e divido com eles os toca e afeta, não estou nem falando diretamente em conteúdo hoje disponíveis, mas sem compreensão. Talvez se não fosse tão preocupada seria menos desafiador.

Ao mesmo tempo no percurso de ir e vir de uma aula e outra, coisas lindas acontecem. Um aluno em uma técnica realiza o sonho da colega com sua arte que admiro, mas ele me diz “é professora, mas isso não dá dinheiro”, no que tenho que concordar. Uma aluna me envia uma imagem, porque lembrou das aulas e das provocações que fiz. Outra abre seu coração cheio de violência vivida na família e ainda lhe dói e machuca. Ou mesmo a aluno que envia um texto de Eduardo Galeano (fico feliz que saiba quem ele é), pois gostou do texto que li em sala de aula. Ou mesmo um e-mail curtinho com um grande pedido de desculpas por se dar conta que aquela raiva não era para mim, o endereço estava errado.

São pequenas pérolas a traduzir que ensinar é tarefa que vai além da sala de aula. Ensinar é muito mais que disponibilizar conteúdos, discuti-los e depois fazer avaliações. Ensinamos quando somos pontuais, quando respeitamos espaços, quando escutamos a dor do aluno que não sabe o que fazer com ela e quando damos limites para as pequenas/grandes agressões que surgem em uma sala de aula cotidianamente.

Entre uma aula e outra fui surpreendida ao chegar na secretaria para pegar o controle do Datashow e a secretária me entregou um bombom branco, meu favorito. Olhei desconfiada para ela, não a conhecia, antes era um rapaz que atendia, eu a questionei por quê? No que responde “por nada, professora”. Seu sorriso e olhos claros me cativaram, agradeci e subi as escadas me dirigindo a sala de aula ainda com semblante de desconfiança. Ninguém dá bombons sem motivos, pensei. Gratuitamente este gesto chegou na minha mão, não era nenhuma data especial. Adentrei a sala de aula e o bombom foi parar na bolsa.

Após minha aula passei na coordenadora do curso que comentou comigo que, também, recebeu um bombom naquela tarde e ficou intrigada com o gesto. Eu lhe disse que estamos acostumados a receber pedras e não bombons atualmente e não estava apenas falando da educação. Talvez esse tivesse sido nosso espanto. Ela concordou comigo. Questionamo-nos sobre nossas insensibilidades e desconfianças de humanos ao nosso redor, estamos sempre armados para atacar cheios de presas e compromissos. Comentamos de nossas dificuldades educacionais que se apresentam e que pouco sabemos como resolvê-las, pois, demandam tempo e várias áreas do conhecimento para encontrarmos saídas, porque precisam ser construídas conjuntamente. A conversa se encerrou e nos despedimos para outros afazeres.

Voltei para casa e lamentei muitas coisas que ocorreram naquele meu dia de ser professora, de ser gente, de ser quem sou. Sentei diante do computador, mas antes retirei da bolsa o bombom e o degustei devagarinho sentido o momento de estar comigo a deliciar as surpresas que a vida traz, e isso foi terrivelmente gostoso.  Talvez possamos distribuir mais bombons por aí, inclusive em sala de aula, quem sabe a gente não adoce a vida deixando ela menos azeda.

Por Maria Emília Bottini

E-mail: emilia.bottini@gmail.com

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