O vírus e (é) a desigualdade social

Metade do mês de maio de 2020. Já nos aproximamos de 300 mil pessoas mortas em decorrência do novo coronavírus – COVID/19 – em termos globais. No Brasil, já passamos de 12 mil óbitos. Números que crescem, vidas que diminuem. Para além desses números, temos pessoas, suas histórias, gente que se importa e é importante para outras gentes. A dimensão humana de uma pandemia é sempre trágica e perturbadora.

O novo vírus chega ao nosso país em um momento complexo. Vivemos uma experiência administrativa em nível federal de extrema-direita, as políticas públicas e os direitos sociais estão sob violento ataque e o próprio problema da pandemia é contestado pelos segmentos sociais alinhados ao negacionismo científico que tem no terraplanismo a sua mais genuína expressão.

Vivemos o contexto histórico da explicitação crescente do pensamento binário, polarizado e raso como um leito de rio em momento de seca. É a preponderância presencial e virtual da doxa sobre a episteme, ou seja, da opinião (“eu acho”) sobre o conhecimento. Não que antes do bolsonarismo não fosse assim, mas não era exatamente assim, pois o que se apresenta na atualidade instaura novos padrões de sociabilidade em meio à continuidade de traços constitutivos de nossa modernidade anômala, nos termos do sociólogo José de Souza Martins.

Estamos diante da renovação de um dilema que acompanha territórios submetidos à colonização violenta: o que é, afinal, ser gente? Populações originais que não professavam determinado credo religioso e não tinham a pele clara eram tratadas como simplesmente animais. Suas vidas não importavam, não eram pessoas de “primeira classe”. É a necropolítica[1] que, tanto antes como agora, gera as condições sociais que definem quem vive e quem não vive.

O estatuto de gente é uma construção e o conjunto de preconceitos e violências que temos em nossa sociedade resultam, em grande medida, do sistema colonial e da escravidão. Temos uma soberania do Estado assentada no monopólio do uso legítimo da força, como discutia Max Weber. A modernidade ocidental define um certo tipo de gente, quem, de fato, é digno(a) e, por isso mesmo, capaz de exercer plenamente aquilo que chamamos de cidadania. A cidade e a indústria vão mudar a natureza e o próprio ser humano.

O resultado desse processo histórico moderno é a pujança e a miséria convivendo lado a lado. A desigualdade social é resultado direto do capitalismo e se apresenta não apenas do ponto de vista material, mas também simbólico. Aprendemos a viver de uma determinada forma que, uma vez irrefletida, se naturaliza. Por isso é tão natural que a classe trabalhadora tenha que seguir trabalhando para sustentar o capital em meio à pandemia. Isso explica alguns discursos dos(as) próprios(as) trabalhadores(as) em defesa do capital, dos(as) patrões e patroas e a defesa do corte de SEUS direitos em nome de seus “empregos”. Aprendemos a ser assim.

Ao termos a capacidade de refletirmos sobre esses processos sociais opacos, que não são facilmente observados, pois exigem um grau de abstração teórica que somente é possível mediante formação própria, incomodamos a quem não quer desnaturalizar nada, pois isso significa mexer em seus privilégios. As ciências humanas, violentamente atacadas pelo bolsonarismo, historicamente cumprem esse papel, por mais que muitos de seus quadros acadêmicos estejam submetidos ao sistema e, inclusive, ajudem na reprodução de sua lógica.

A pandemia atual não criou, mas explicitou o nosso pior “vírus”: a desigualdade social. Vivemos no continente mais desigual do mundo[2]. A América Latina apresenta aguda concentração de renda e riquezas e, por consequência, gigantesca exploração do trabalho. No Brasil, esse cenário é extremo, conforme os dados a seguir:

sob o critério-base do Banco Mundial, de US$ 1,90 por pessoa/dia, havia cerca de 15 milhões de pobres no país em 2017, 7,2% da população, um crescimento de 11% em relação a 2016 quando havia 13,3 milhões de pobres (6,5% da população). Esse é o terceiro ano seguido em que essa taxa cresce, tendência iniciada em 2015. O Brasil é, sob critérios do Banco Mundial, Upper-middle Income Economy, grupo de países onde a linha da pobreza ponderada pelo tamanho da economia é calculada em US$ 5,5 por pessoa/dia. Sob esse critério, o Brasil teria hoje mais de 22% de sua população em situação de pobreza, 45 milhões de pessoas em vez de 13 milhões.[3]

Mais de 1/5 da população brasileira vive em situação de pobreza. Mesmo assim, a riqueza segue sendo legitimada como “merecimento”, afinal, quem é milionário “fez por onde”. Essa faceta naturalizada da meritocracia é parte da dominação ideológica do capital e penetra no imaginário social de forma decisiva. Quem é rico (geralmente homens) é admirado e tido como exemplo a ser seguido.

Além desse segmento minoritário da elite milionária – “ricos, podres de ricos” [4] – que detém o poder por sua riqueza substantiva, temos segmentos de classe média que se identificam com a elite e se constituem em sua “tropa de choque”, atuando na sua defesa e na manutenção de seus privilégios, vendidos como naturais ou fruto do merecimento.

Em virtude da alta concentração de renda, segmentos de classe média se consideram ricos, assumindo uma postura de naturalização de sua condição e da exploração que, via de regra, submetem à classe trabalhadora (principalmente nos serviços domésticos). Mesmo não sendo atingida, parte da classe média é contra a taxação das grandes fortunas. Isso se explica num contexto de miséria e pobreza em larga escala e atualiza o ditado popular: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

A nossa “realeza” é quem sai às ruas em carreatas pelo fim do necessário distanciamento social. É o mesmo segmento social que estava indignado com a corrupção nos governos do lulopetismo e se cala a partir de Temer e Bolsonaro. Em grande parte, é quem trouxe o vírus para o Brasil, importando do exterior. Muitos e muitas fazem coro que é só uma “gripezinha” e que deixando idosos(as) em casa tudo ficará bem. A economia, como sempre, não pode parar.

De fato, nos marcos capitalistas em que vivemos, não pode mesmo. E diante de um cenário de urgência coletiva, não cabe ao Estado gerir essa crise? Se as pessoas não devem ir trabalhar para não colapsarmos o sistema de saúde, não cabe ao poder público garantir renda durante esse período? Se não for esse um dos seus papéis, para que serve mesmo o Estado? Será que é só para proteger a propriedade privada?

Para os bancos nunca falta dinheiro público, mas para sacar míseros R$ 600,00 vemos o povo pobre submetido à extrema burocracia e constrangimentos de toda a ordem. O novo vírus vem reforçar nosso “racismo primordial” [5]: quem é, de fato, gente? Quem é digno(a) de se proteger da contaminação ou ter um atendimento médico eficiente e humanizado?

O novo coronavírus gera uma situação que desafia as ciências biológicas da mesma forma que as ciências sociais em sua compreensão e enfrentamento, deixando muito evidente a importância da pesquisa científica. Além dessas áreas e da saúde, mais uma vez a história nos mostra como é importante termos escolas e universidades funcionando plena e presencialmente. Mesmo que por esses espaços passem pessoas que as negam, assim como pessoas que não conseguem enxergar outras pessoas. Seguimos como muito trabalho pela frente e com muitos cuidados, inclusive por quem não nos cuida.

[1] Vide o ensaio de Achille Mbembe: “Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte”. São Paulo: n-1 edições, 2018.

[2] Vide matéria publicada na BBC Brasil: “Por que a América Latina é a região mais desigual do planeta”. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51406474>. Acesso em: 13 mai 2020.

[3] OXFAM BRASIL. País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras. Relatório disponível em: <https://oxfam.org.br/um-retrato-das-desigualdades-brasileiras/pais-estagnado/>. Acesso em: 13 mai 2020.

[4] Vide o livro “Ricos, podres de ricos” de Antonio David Cattani. Porto Alegre: Marcavisual/Tomo Editorial, 2018.

[5] Noção trabalhada pelo sociólogo Jessé Souza no livro “A guerra contra o Brasil”. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2020.

Thiago Ingrassia Pereira

Sociólogo, Doutor e Pós-Doutor em Educação

Tutor do Grupo PET/Conexões de Saberes – Práxis/Licenciaturas (FNDE)

UFFS Campus Erechim

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