A história do alemão que assumiu, em Erechim, a vida do irmão morto na 1ª Guerra Mundial

(1914) A Alemanha iniciava os procedimentos para alistar milhares de soldados na Primeira Guerra Mundial. Entre eles dois irmãos: Henrich e Richard Lüpges, de 26 e 20 anos. Como num presságio, o mais velho faz um pacto com o mais novo. “Se eu não sobreviver à guerra, cuide de minha família. Assuma meu posto. Case com a minha esposa e mantenha a família”, pediu. Henrich não voltou. Richard, solteiro, honrou a promessa. Deixou de viver a própria vida com a namorada que amava, “Tanti”. Retornou à Colônia, cidade alemã onde vivia a família, e assumiu a cunhada, Elizabeth, e os seus três sobrinhos ainda pequenos. A história dos Lüpges jamais havia sido contada. Estava escondida. Richard morreu em 1977, no interior do Paraná. Grande parte de sua memória se perdeu com ele. Mas a última esposa, Ângela, com 104 anos, ainda vive. A família decidiu contar toda a história que uniu a família no Brasil com receio de que os fatos se percam ainda mais. A história vai ser transformada em um livro.

Filha mais nova de Richard, Ângela, hoje com 63 anos, é quem narra os fatos da trajetória do pai. Ela guardou calada os relatos que ouvia desde criança. Eram histórias aterrorizantes da guerra. Mas ao mesmo tempo, exemplos de muita honestidade e amor. Uma caminhada de trabalho, sobrevivência e persistência. Ela conta que Richard permaneceu nos horrores da Primeira Guerra Mundial do início ao seu fim – 1914 a 1918. Lutou em trincheiras de lama e sangue. Viu os melhores amigos morrerem. Pior que isso. Soube da morte de seus cinco irmãos na mesma guerra, incluindo Henrich, com quem fez o pacto. Ele não sabia, mas o governo alemão, erroneamente, enviou informes da sua própria morte aos seus pais. Após o final da guerra, quando retornou para casa, a mãe não acreditou no que via. “Teve um choque tão grande quando o viu que seu coração, já castigado pelo sofrimento, não suportou. Ele ainda a pegou no colo, mas ela já tinha morrido”, relata Ângela.

No mesmo ano Richard cumpriu a promessa feita ao irmão. Antes disso, rompeu com a namorada, “Tanti”, a quem havia feito juras de amor. “Ele amava aquela mulher. Mas teve a vida roubada por causa de sua promessa”, lembra a filha. Assim, ele mudou-se para a residência de Elizabeth e deixou de ser cunhado para transformar-se em marido. Da união, o casal teve mais um filho, ainda na Alemanha, Rechard Joseph. Assistindo a possibilidade de novos conflitos, principalmente, organizados pela extrema-direita nazista, Richard decidiu abandonar a Alemanha. Na verdade, traumatizado com o que viveu nas trincheiras, ele não conseguia enxergar a possibilidade de atuar em outra guerra. “Além de tudo o que viu, ele havia sido atingido na perna por uma granada. Mesmo andando normalmente, à noite, ele não suportava as dores”, lembra Ângela. Anos adiante, 1967, ele teve que amputar a perna.

Então, em 1924, Richard desembarcou no Brasil, no Porto de Santos, com Elizabeth e três dos quatro filhos. Uma das crianças teve uma doença contagiosa durante a viagem e morreu. O corpo foi jogado ao mar. Ainda no porto, a família teve todos os seus pertences roubados. Malas, pratarias, roupas, utensílios. Tudo foi levado. Sobrou apenas o dinheiro que Richard carregava nos bolsos. Erechim, Rio Grande do Sul, foi o destino escolhido pela família. E foi ali onde a rotina da família voltou ao normal. Richard era ferreiro na Alemanha. No Brasil trabalhou com vulcanização de pneus, moinho de trigo e madeira.

Com o passar dos anos, Richard entendeu os costumes brasileiros. A língua também deixou de ser obstáculo, uma vez que a região abrigava inúmeras famílias alemãs. Por volta de 1926, o casal teve mais uma filha, Analisa. Elizabeth Giesen Lüpges, a ex-cunhada que virou esposa, faleceu em 1949. Nesta época, triste pela perda da companheira, Richard tentou retomar a vida que havia perdido, antes da guerra. Então enviou uma carta à ex-namorada do pré-guerra, “Tanti”. Mas a carta demorou muito para chegar. Sem respostas e com a solidão batendo à porta, o alemão aproximou-se da costureira da família, Ângela Gerardth.

Aos 55 anos Richard se casou com Ângela, 35, e tiveram três filhos, Jorge, Rosa e Ângela, hoje com 69, 67 e 63 anos respectivamente. Mas, como num roteiro sem precedentes, a carta enviada a “Tanti” um dia chegou ao seu destino. E, anos depois, chega a Erechim, a moça alemã com quem Richard era para ter se casado. Ela veio ao Brasil atrás do seu alemão, mas não sabia que já estava casado. Sem falar nada do português, sem entender os hábitos e, ainda, sem ter nem onde dormir, “Tanti” foi acolhida pela própria esposa de Richard. “Minha mãe contou que a abrigou porque ficou com pena. Ela não tinha nada. Estava perdida. Principalmente, depois que descobriu que meu pai tinha se casado”, conta a filha.

“Tanti” passou a morar em Erechim e anos mais tarde mudou-se para São Paulo. Nunca mais ouviu-se notícias dela. A família de Richard deixou o Rio Grande do Sul no final da década de 50. Rumou ao interior do Paraná. Passaram por Cianorte, Paraíso do Norte e se estabeleceram, por fim, em Alto Paraná – 490 Km de Curitiba. Os dois sobrinhos que adotou como filhos também morreram. Ele os respeitou como filhos legítimos, cumprindo a promessa feita ao irmão. Richard viveu até 1977. Depois disso, a filha Ângela mudou para Goioerê, no Paraná. Ela reside ali até hoje ao lado da mãe e ex-companheira do pai, Ângela. Aos 104 anos de idade, Ângela está bastante debilitada devido à idade. Quase não come e passa todo o tempo deitada sobre a cama. Ainda assim fala sobre o marido. “Ele era bravo. Muito bravo”, disse.

Quem era Richard Lüpges

Richard era um homem magro, forte e com 2,04 metros de altura. Acreditava em Deus e no poder da família. Adorava ópera e devorava livros. Culto, falava apenas o necessário. Fazia operações matemáticas de cabeça. Gostava de receber amigos, sempre com um bolo a oferecer. Mesmo não bebendo, fazia questão em servir uma caixa de cerveja às visitas. No Brasil só trabalhava. Empreendedor, montou uma serraria com equipamentos velhos no Paraná. Mais tarde juntou dinheiro e importou maquinário novo da Alemanha para iniciar uma indústria de colchões de molas, na década de 60. Depois de pronta, a empresa foi consumida pelo fogo. “Um ex-funcionário, demitido por embriaguez, jogou gasolina e depois ateou fogo em tudo”, disse Ângela.

Antiga indústria de colchões de Alto Paraná na década de 1960, de Richard Lüpges. Na foto estão Ângela Gerardth e os filhos.

Devido a sua semelhança com Adolf Hitler, Richard apanhou nas ruas de Colônia, na Alemanha, antes de vir ao Brasil. Na ocasião, perdeu todos os dentes com os chutes que recebeu. “Meu pai era contrário a Hitler e o movimento nazista. Ele nunca concordou com a brutalidade, violência e a guerra. Dizia que a guerra era a maior estupidez do homem”, lembra a filha. No corpo já frágil, pouco antes de morrer, Richard ainda guardava diversas cicatrizes profundas ocasionadas pelos arames farpados nos campos de guerra.

Logo depois de 1967, quando perdeu a perna, ele entrou com pedido junto ao governo alemão para receber uma pensão pelo acidente da guerra. E passou a ganhar. Mesmo sendo um valor bastante significativo, conta a filha, Richard logo pediu o cancelamento do benefício. “Ele disse que não precisava, uma vez que ganhava bem com a loja que mantinha na cidade – Alto Paraná. Dizia que aquele dinheiro tinha que ser destinado a quem precisava”, afirma ela. “Aprendemos muito com ele. Honestidade. Ele era correto. Sério nos negócios. Ajudou muita gente”, disse.

Atormentado pela guerra

Richard Lüpges nasceu na Alemanha em 1894 e morreu no Brasil em 1977. Morreu aos 84 anos e sem uma das pernas. Nos últimos anos de vida passou escondido atrás de sua escrivaninha, em meio às lembranças, livros e anotações que fazia de suas memórias. Relatos de um tempo difícil de ser esquecido. Ficou na cadeira de rodas devido ao ferimento com a granada. Mesmo assim tomava conta de todos os negócios da família. Uma loja de móveis e vidraçaria. Aproveitava o tempo para escrever. Nos papéis em branco transformava sentimentos em relatos de dor e de sangue.

Mas, o que era para ser um importante relato sobre a Primeira Guerra Mundial, perdeu-se. Um amigo de Richard gostou do que havia lido e pediu emprestado para mostrar a alguns conhecidos que também estiveram na mesma guerra. O amigo morreu e os escritos se perderam. “Ele não podia ouvir fogos de artifício, isso o incomodava porque traziam de volta o som das bombas da guerra. Sofria com o barulho”, lembra Ângela.

A filha conta que não havia um só dia em que ele não falasse alguma coisa sobre a guerra. Até as canções que cantava eram lembranças de sua terra, de sua casa, de sua vida, da guerra. Certa vez narrou que seu pelotão começava a perder força. Muitos homens mortos ao seu lado. Inclusive amigos. Sem chances de vitória naquela batalha, os poucos soldados saíram das trincheiras e correram para dentro dos vagões do trem que iniciava a partida. Os sobreviventes levavam destroços humanos dos tantos jovens soldados mortos ali.

Então, já dentro do vagão, Richard olhou para o lado e viu uma cena de intenso terror: soldados sujos de sangue, cabeças, braços e pernas espalhados por todo canto. Foi quando viu o corpo destroçado de seu amigo e companheiro de ópera. “Meu pai dizia que era impossível apagar aquela cena de sua cabeça”. Dias depois, enquanto rastejava sob arames farpados, uma granada explodiu estraçalhando a sua perna. Dentro do possível na época fizeram o que podia ser feito, inclusive enxerto de carne. Mas as feridas que se formaram nunca cicatrizaram. Por anos as feridas se fechavam e se abriam. Bem no final, as dores o venceram. A gangrena tomou conta e a perna teve que ser amputada em 1967.

Dez anos depois, ao meio dia de 22 de novembro de 1977, vítima de um acidente vascular cerebral, Richard Lüpges morreu. Morreu sem falar, embora tivesse muito a dizer. Sua história ficará guardada na memória dos filhos e, agora, também dos netos e bisnetos, que passaram a conhecer os caminhos percorridos pelo avô e bisavô.

Quem era “Tanti”

Relatos de uma amiga da família de Ângela Lüpges, revelam que o nome de “Tanti” era Sibila. Depois de deixar Erechim, no Rio Grande do Sul, ainda na década de 50, ao lado de seu irmão Mathias – também vindo da Alemanha – ela passou a ser decoradora na casa de pessoas famosas em São Paulo. “Me deu de presente uma lasca de madeira com letras folheadas a ouro vindo da Alemanha. Os ladrões me roubaram num assalto em Porto Velho”, conta Lourdes Casagrande. Escrito em alemão a lasca dizia: proteja junto seu lar evitando sofrimento. Pois curto é o tempo que vocês estarão juntos.

Sibila também tinha uma história de vida interessante. Ela era enfermeira da Cruz Vermelha na Segunda Guerra Mundial. “Tanti era de uma bondade sem tamanho. Contava que nunca tinha colocado uma tesoura em seu cabelo. Uma maquiagem em seu rosto e nem um esmalte em suas unhas”, diz Lourdes. Depois de ser deixada por Richard, ainda após a Primeira Guerra, jamais se casou. Conversava apenas em alemão e nunca desperdiçava nenhum pedaço de comida. “Dizia que ‘só quem viveu a guerra sabia o que era a fome’.

Fonte: Gazeta do Povo 

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