Canudinho, o desprezível exterminador do futuro!

A temática ambiental é um lugar eivado de modismos e discursos politicamente corretos, que na maioria das vezes, não passam de ilusão, ainda que bem-intencionadas. É sabido que as preocupações com o meio ambiente nunca fizeram governos, políticos, empresários, agricultores ou, habitantes das cidades, das regiões rurais a perder o sono por causa disso. Os ativos da natureza têm poucos defensores e, ainda continua sendo visto e interpretado como um grande almoxarifado a céu aberto para uns, depósito de lixo para outros.

No fundo, o que se quer ter é comodidade e facilidade à larga da vida moderna, fora disso, é firula e dá trabalho. E por certo não faremos o caminho de volta, afinal, quase tudo vem se conduzindo para a lei do menor esforço. É uma lei biológica que transformou os comportamentos sociais, e que paulatinamente está se transformando, de igual modo, em lei de convivência, acomodação e aceitação social.

O uso do plástico é um bom exemplo disso. Cerca de de 8 a 13 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos por ano. De todo o plástico produzido, apenas 9% é reciclado. Além disso, são produzidas um milhão de garrafas plásticas por minuto. Entre os materiais mais encontrados nos oceanos e cursos d’água, estão canudos, sacolas plásticas, redes de pesca, bituca de cigarro, tampinhas de garrafas, que estão se tornando em micropartículas e circulando na cadeia alimentar com danos à saúde e aos ecossistemas, cujos efeitos ainda sequer são imaginados.

O Brasil, é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, com 11,3 milhões de toneladas, perde para os Estados Unidos, China e Índia. O problema do consumo e o descarte do plástico não é um assunto trivial, é grave, cuja solução, por vezes, se apresenta travestido de inclusão social.

Em 2050 estima-se que a produção mundial possa chegar a 33 bilhões de toneladas. Os cientistas acreditam que teremos mais plástico do que peixe nos oceanos. O uso do plástico é um bom exemplo do que a oferta de “soluções mágicas da tecnologia” pode causar, cujas ameaças imprevisíveis emergem em um sem número de problemas, para os quais ainda nem foram pensadas soluções, talvez por elas não existam.

Contudo, vivemos de modismo, e de vez em quando é eleito um desprezível responsável por nossos incautos desatinos de soberba. Já tiveram seus dias de glória como vilão: os carros, o amianto, o mercúrio, as bitucas de cigarros, as sacolas plásticas, e agora é a vez do canudinho. Confesso, eu nunca consegui encontrar uma utilidade nobre para o uso desse grande artefato tecnológico chamado mimosamente de canudinho. É uma daquelas invenções inúteis, mas as pessoas simplesmente não conseguem beber quase nada sem ele.

Eleito a categoria de vilão, inúmeras cidades ao redor do mundo, e no Brasil também, estão criando leis para banir, proibir ou dificultar comercialização e uso dos canudinhos, criando sanções aos estabelecimentos que desrespeitarem as normas. Entretanto, vale reproduzir aqui o argumento do economista Christian Luiz da Silva, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) que enfatiza que as campanhas que transformaram o canudinho em vilão têm um interesse comercial comum, utilizando o mote da defesa do meio ambiente, mas o que quer efetivamente é reduzir os custos dos empreendimentos na oferta dos serviços. Podemos concluir que uma iniciativa que possui valor simbólico, mas diante da problemática ambiental dos resíduos sólidos é uma resposta muito tímida.

Existem problemas bem mais emergentes.

Por meio de um trabalho de pesquisa que está realizado pelo curso de mestrado em Ciência Tecnologia Ambiental da Universidade Federal de Fronteira Sul, Campus de Erechim, estou levantando dados sobre a situação de passivo ambiental das propriedades rurais da Região do Alto Uruguai. Os dados até agora tabulados dão conta que mais de 60% dos estabelecimentos rurais tem problemas com as áreas de preservação permanente ou de reserva legal, elas estão a menor do que o previsto exigido pelo novo Código Florestal (Lei 12.651/2012).

O cumprimento das exigências do Programa de Recuperação Ambiental (PRA) é um problema real dos agricultores da região do Alto Uruguai, que poderia ter a intervenção das prefeituras através de leis municipais, ao criar mecanismos de apoio por meio de fundos municipais ambientais para auxiliar aos agricultores a recuperarem as áreas que necessitam ser protegida e recuperadas por meio de pagamento por serviços ambientais (PSA).

Um exemplo bem-sucedido é o que está acontecendo por meio do Projeto Conservador de Águas que está sendo realizado pela prefeitura de Extrema, em Minas Gerais. O projeto começou com as primeiras discussões e levantamento de informação e elaboração dos projetos em 1996. O início das atividades em 2005 por meio da institucionalização em lei municipal. Durante esses 14 anos foram plantadas mais de 1,5 milhão de árvores de várias espécies nativas, em área para recuperação de mananciais. Foram 224 contratos efetivados em propriedades rurais beneficiadas com o PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), 264.335 mil metros de cercas construídas, implantação de mais de 1000 bacias de contenção de águas pluviais e 40.000 metros de terraços de conservação de solos.

O exemplo prova de que é possível o munícipio ser protagonista na criação de políticas ambientais e, que podem e devem ser capitaneadas pelas instituições municipais (Prefeitura, Câmara de Vereadores, Secretarias), organizando fóruns com as organizações da sociedade civil, a fim de levantar informações, planejar e escolher as prioridades. Afinal, a região do Alto Uruguai tem sido alvo de constantes crises hídricas, devido as recorrentes estiagens.

Acredito e defendo que o apelo a proteção e recuperação dos mananciais oferece um mote que mobiliza a sociedade na solução de um problema que está a descoberto, que é o passivo das áreas de proteção permanente e de reserva legal e vai demandar investimentos.

Diante disso, o desprezível canudinho não é o vilão tão poderoso quanto parece!

Por Eliziário Toledo
Sociólogo, mestre em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS – 2009), doutor em Desenvolvimento Sustentável (CDS-UnB – 2017), mestrando em Ciência e Tecnologia Ambiental (UFFS – 2018).

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