Pesquisa da UFFS aponta percepções sobre educação emocional em escolas de Erechim

Dados revelam questões sobre violência verbal e física e também a pertinência de formações voltadas para a mediação de conflitos

Que a escola é parte decisiva na formação do ser humano, não há dúvidas. Mas o aprendizado vai muito além daquilo que compõe disciplinas como matemática ou língua portuguesa. É no ambiente escolar que a criança começa a lidar com relações éticas e afetivas que poderão marcar toda a sua vida. Foi pensando em toda essa dimensão humana que pesquisadores da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Erechim identificaram, junto a professores e estudantes da rede pública municipal, a percepção sobre desenvolvimento emocional nos ambientes escolares. Participaram da pesquisa 221 professores e 432 alunos do município de Erechim, através de entrevistas e de questionários.

O trabalho, desenvolvido a partir de um grupo de estudos da Universidade voltado especificamente para este tema, apontou diversos pontos que podem auxiliar a desvendar como andam as relações no espaço escolar. Do total de docentes entrevistados, 91 profissionais afirmaram que sentem dificuldades em dirigir-se aos gestores para apresentar seus problemas, dificuldades e fragilidades. Para a professora da UFFS e coordenadora da pesquisa Adriana Salete Loss, este dado aponta que se faz urgente a constituição de processos de lideranças de escuta no contexto escolar, capazes de constituir no coletivo a confiabilidade, a empatia, a segurança e a ajuda mútua na resolução de problemas.

A pesquisa revelou também que a maioria dos docentes da rede municipal (164, mais exatamente) considera necessária a existência de processos formativos para o cuidado emocional e ético nas relações entre as pessoas do ambiente escolar. Ao mesmo tempo, porém, 162 professores discordam, parcial ou totalmente, ter que ser um dever dos profissionais possuir algum tipo de formação sobre mediação de conflitos. Quando os pesquisadores questionaram se a educação emocional deve fazer parte do currículo escolar e da proposta de formação continuada dos professores, 139 docentes concordaram totalmente.

Conforme a professora Adriana Loss, a incongruência apresentada pelos resultados revela que a prática de processos educativos e formativos para o cuidado emocional e ético é parcialmente compreendido pelos professores. “Esse indicativo expressa o quanto ainda se faz necessário a constituição de processos autoformativos nos cursos de formação inicial e continuada dos professores”, destaca.

“As dimensões emocionais e éticas perfazem as relações interpessoais. É crucial que os centros educativos estejam atentos ao desenvolvimento integral do ser humano. O docente que cuida das dimensões emocional e ética constrói relações interpessoais do diálogo, da empatia, da compreensão, da amorosidade e do respeito”, diz a pesquisadora. “Cuidar do docente repercutirá no cuidado aos estudantes; docentes em bom nível de bem-estar promoverão espaços educativos alegres, confiantes, seguros e de saberes compartilhados.”

A pesquisa apontou também algumas discordâncias em certas proposições. Quando questionados se os professores sentem dificuldades em realizar a mediação dos conflitos em sala de aula, 99 docentes concordaram parcialmente, e outros 84 discordaram também parcialmente. Conforme Adriana, os resultados expressam que o tema da mediação de conflitos não tem sido foco dos processos formativos dos professores.

“O conflito nas relações humanas, enquanto ato de liberdade de escolhas e posicionamentos, é fundamental para a construção de espaços democráticos. Mas quando o conflito atinge o nível de desrespeito nas relações interpessoais, necessita da mediação, de modo a constituir a reflexão dos atos e das ações que não permitem o bem-estar do ambiente escolar”, fala a docente da UFFS. “Os centros educativos necessitam constituir espaços de conhecimento e troca de saberes mediatizados pelo diálogo e pelo respeito ético. Desse modo, é importante que a formação inicial e continuada de professores se atente para a formação com base no tema mediação de conflitos.”

Escola precisa estar atenta à violência verbal e física

Dos 432 alunos que participaram da pesquisa, 272 concordaram que os conflitos na escola ocorrem por falta de diálogo. Ainda 276 estudantes concordam que esses conflitos terminam em violência verbal.

Os números que mostram se esses conflitos resultam em violência física foram variados. Para se ter uma ideia, 89 concordaram totalmente com a afirmação e 88 discordaram totalmente. “Os dados revelam o cenário do contexto escolar que pouco ou quase nada tem investido em processos educativos e formativos do cuidado emocional e ético”, diz a coordenadora da pesquisa.

“Os estudantes se encontram num espaço educativo que tem a responsabilidade de os ajudar em seu desenvolvimento integral. Para tanto, é crucial que a escola seja um espaço da escuta, do diálogo, da pergunta, da compreensão e da orientação ética. Quando ela não cumpre este papel, abre-se possibilidades para a violência verbal e até física. Assim, se permitida a violência na escola, assume-se o papel da deseducação da sociedade”, comenta Adriana.

A íntegra da pesquisa foi entregue para a Secretaria Municipal de Educação de Erechim e também para todas as escolas participantes. Para a secretária municipal de Educação, professora Vanir Clara Bernardi Bombardeli, “abordar o tema sobre emoções no âmbito escolar é sempre muito importante e significativo, especialmente por ser um espaço de inserção de sujeitos que trazem especificidades, próprias do seu meio, constituídos por inúmeros sentimentos e percepções de valores que emergem nas relações de convívio”.

“A pesquisa fornece dados para discussões para uma melhor compreensão das ações pedagógicas, articulando a razão, a emoção e o diálogo, na busca de novas estratégias para melhoria do convívio e interação social na escola. O desenvolvimento das emoções é um processo de construção permanente, que interfere diretamente no contexto escolar”, destaca Vanir.

Segundo Adriana Loss, os dados do estudo serão utilizados em trabalhos de conclusão de curso e, também, servirão de base para estudantes da Graduação, especialmente no curso de Licenciatura em Pedagogia. “A pesquisa permite também avançar com a investigação na perspectiva da Pós-Graduação”, finaliza Adriana.

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