A balada de Emmitt Till e o joelho no pescoço, o que dói mais?

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Emmitt Louis Till um afro-americano, nasceu em 25 de julho de 1941 e foi assassinado em 28 de agosto de 1955, na pequena cidade Money, no Mississipi. Ele tinha14 anos. A causa de sua morte foi por ter supostamente assobiado para uma garota branca, Carolyn Bryant de 21 anos. Roy Bryant e seu meio irmão JW Milan enfurecidos com o atrevimento, se dispuseram a “dar uma lição” no garoto. O pegaram, o colocaram na traseira de uma camionete e o levaram até uma cidade próxima de Money, a Sunflower County. O espancaram, arrancaram-lhe um olho, destrocaram sua cabeça, atiraram nele, e por fim, amarraram em seu pescoço um descascador de amendoim de 150 quilos e jogaram o corpo no rio Tallahatchie, perto de Pasadena, ao norte da cidade de Money.

O menino ficou desaparecido por três dias, até que seu corpo inchado e desfigurado foi encontrando boiando no rio. Só foi reconhecido, graças a um anel que usava e que tinha sido do seu pai que sua mãe havia dado a ele no dia anterior.

O corpo depois de recuperado, a polícia e os assassinos buscaram escamotear, tentando dizer que era outra pessoa. Os irmãos Bryant foram formalmente acusados do assassinato. O julgamento ocorreu 22 dias após o fato, durou 67 minutos. E lógico, os réus foram absolvidos! Após o julgamento, a revista Look pagou a JW Milan e Roy Bryant quatro mil dólares para contar a verdadeira história e confirmaram, que realmente cometeram o crime. Como eles não poderiam ser julgados novamente pelo mesmo crime, a justiça foi feita!

O funeral de Emmitt foi realizado em Chicago, com o corpo em decomposição. A mãe, Mamie Till Bradley, exigiu que o caixão fosse aberto para se despedir do filho e determinou que o deixasse aberto para que todos pudessem ver. Ordenou que o rosto de seu menino fosse fotografado: “Eu quero que o mundo saiba o que fizeram com meu bebê”, teria dito. O evento foi o motivo para o nascimento dos direitos civis nos Estados Unidos.

Sessenta anos depois, Carolyn Bryant, aquela que havia sido o alvo do assobio galanteador, confessou que era mentira, Emmitt nunca tinha assobiada para ela. A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, ainda está persiste na ordem do dia. O slogan“I have dream” já é um senhor grisalho com cinquenta e sete anos, que não se surpreende mais!

Me lembrei do assassinato do garoto Emmitt, para emoldurar a morte de George Floyd, no mesmo Estados Unidos, se é que isso é possível e razoável. Os dois eventos têm a ver com o ar, um usado para diversão e o outro para continuar vivo. O primeiro foi um maroto e imaginário assobio, o segundo, um joelho portentoso no pescoço que o impedia de respirar.

Vidas importam, qualquer tipo de vida importa, não só as humanas, mas todas. Mas, como espécie, os humanos passam muito tempo fazendo mal a si, aos outros e ao planeta. E ainda assim, defendem ser tudo justificável, conforme os desejos, vontades e ideologias.

A morte de Floyd foi terrível. Qualquer morte evitável é terrível, por que a esperança morre um pouco a cada dia, por que dá uma ideia de abandono. E é isso, o tempo todo e em todo o lugar! No fundo, o grande obstáculo é a incapacidade de possibilidade do reconhecimento. A luta pelo reconhecimento é uma busca pessoal, mas o reconhecimento é dado e concedido pelo outro. Reconhecer o outro como igual, apesar de diferente, reconhecer que se comete erros, da ilusão do saber e do entendimento é uma dura batalha.

É uma legião de mortes, muitas evitáveis. Lamentamos, dizemos que é triste até o próximo punhados de mortes estúpidas! E a vida segue! A tragédia em Brumadinho completa mais de 300 dias com 254 mortos, 16 desaparecidos e nenhum preso! E mesmo as 37.000 mortes da pandemia, com o tempo serão apenas estatísticas!

A maioria dos homens de cinza e às minorias que se debatem na pobreza ficam à margem da administração do sistema de poder. O poder foi pensado, arquitetado e administrado para aqueles que não necessitam de proteção, e pior, justificam. De vez em quando o sistema cede, mas é pouco, diante da grandeza das demanda dos que realmente necessitam.

Mas minha inquietação é de outra ordem. O que explica a grande fúria e ódio no mundo? Odeia-se por que é mais fácil, basta ser diferente, por ser negro, judeu, italiano, polonês, alemão, protestante, japonês, católico ou macumbeiro. Odeia-se, por que é maconheiro, bêbado, vagabundo, idiota, da esquerda, da direita, de baixo ou de cima. Mas, se odeia também por que é inteligente e tem coragem de defender o que acredita.

Odeia-se por que é humano, demasiado humano e tem se tentado por séculos debelá-lo sem muito sucesso! Fale-se do ódio como se isso fosse um lugar privilegiado e localizado, mas penso que não é, basta olhar na volta. São as pessoas que odeiam e fazem disso uma arma política, independente qual seja a ideologia, e às vezes se torna em um modo de vida.

Na ausência de um fim melhor, aceito o conselho de Brecht dado “Aos que vão nascer”:

“Eu gostaria bem de ser um sábio.

Nos velhos livros consta o que é sabedoria:

manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve

deixar correr sem medo.

Também saber passar sem violência,

pagar o mal com o bem,

os próprios desejos não realizar e, sim, esquecer,

conta-se como sabedoria”.

Eliziário Toledo

Sociólogo, mestre em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS, 2009), doutor em Desenvolvimento Sustentável (CDS-UnB, 2017), mestre em Ciência e Tecnologia Ambiental (UFFS, 2019).

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