Vergar para não quebrar

Por Maria Emília Bottini[i]

Encontrei dia desses e por alguma razão guardei em um arquivo no meu computador. Talvez para trabalhar com algum paciente ou mesmo escrever uma crônica inspirada nela, que hora faço.

Quando a olho me sinto provocada a refletir. Penso na nossa rigidez cotidiana e insana, por vezes apegados aos velhos costumes, sem abrir mão de algumas coisas, pois vergar significa sofrer menos. Muitas vezes mantemos nossa rigidez a nos machucar, sem nos dar conta que vergar é sábio e necessário, é preciso aprender com as árvores.

Há sabedoria nas árvores que vergam para não quebrarem seus galhos quando o vento faz suas danças, seja em movimentos lentos ou nada calmos a quase tirar as raízes do chão. Vergar é uma forma de inteligência, vergando as árvores se mantem firmes e fortes para seguir existindo. Já em outras vezes, mesmo vergando suas raízes são arrancadas devido aos ventos que são devastadores, até mesmo para as árvores.

Mulheres, homens, crianças, idosos precisam, em muitos momentos da vida, vergar-se, dobrar-se à situação que se apresenta ou quebrarão e isso torna a existência um pouco mais difícil. Quando quebrados precisam de ajuda, o que nem sempre aceitam, pois ainda relutam em se vergar. Vergar é, por vezes, nossa alternativa para continuar a existir assim como as árvores.

A vida é um eterno vento que sopra a nos desacomodar e quando acostumados com ele, lá vem outra rajada a nos soprar mais e mais, quase a nos quebrar, arrancando-nos de nosso lugar conhecido e dominado fazendo-nos acreditar que será permanente; noutras situações o vento é calmo e a calmaria parece reinar, apenas parece. É preciso acostumar-se com o vento que sempre  sopra, ter atenção vigilante é o nome do jogo.

Quando  nos sentirmos arrancados pelos ventos que sopram, é preciso ter a humildade de começar novamente, tomar fôlego, recompor-se, sacudir a poeira e seguir o movimento de readaptação. Os ventos sempre nos modificam, é de sua natureza. Mesmo para as árvores algumas frutas e folhas são perdidas, mas é preciso continuar a ser árvore, mesmo com as perdas.

Precisamos encontrar dentro de nós a resiliência, capacidade de vergar e voltar ao estado original, não sem incorporar as mudanças, é sábio aprender a vergar, para não quebrar.

 

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[i]Psicóloga clínica

Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF)

Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB)

Autora do livro No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer

E-mail: emilia.bottini@gmail.com

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