As nossas tragédias ambientais de cada dia  

Por Eliziário Toledo[1]

Por conta da abundância de recursos naturais desde as priscas eras, no Brasil cuja terra plantando tudo dá, a preocupação ambiental nunca foi um assunto que costuma tirar o sono do povo e das autoridades. Agimos acreditando que a abastança nunca vai acabar.

Exemplos não faltam.

Na Conferência Mundial de Meio Ambiente em Estocolmo, na Suécia, em 1972, defendida e recomendada pelo Ministério das Relações Exteriores, Ministério do Interior, Ministério do Planejamento, Ministério da Indústria e Comércio, e aprovada pela Presidência da República”, determinava que o Brasil defenderia a posição que:

“[…] não nos interessa água pura e ar puro se não temos emprego e, consequentemente, dinheiro para comprar o que comer. O Brasil prefere ter um ar menos puro, um solo menos puro, águas menos puras, mas uma indústria que dê condições econômicas ao povo e ao governo para se desenvolver. Este é o ponto básico. Se for possível e economicamente viável industrializar sem poluir, isso será́ feito, se não for possível, teremos a indústria e as consequências das mesmas […]”.

Isso não chega a soar estranho, afinal o “desenvolvimento” brasileiro e do resto do mundo foi concretizado por meio da maciça pilhagem do trabalho e dos recursos naturais a fim de transformá-los em mercadorias industrializadas. E essa realidade ainda é a regra de ouro que rege os destinos da maioria dos países, como o nosso, que busca desesperadamente “investimentos produtivos” na economia, que permite, inclusive, atropelar qualquer legislação que dificulte isso.

Dessa forma, não é de admirar que o Brasil nos últimos trinta anos tenha sido o palco de inúmeros “acidentes” ambientais que consolida a certeza da impunidade dos responsáveis, que além dos danos ambientais trazem tragédias na vida de muita gente, e os exemplo são muitos.

Incêndio na Vila Socó (Cubatão, SP, em 1984) causada por falhas na tubulação da Petrobras derramou 700 mil litros de gasolina resultando um incêndio pavoroso e matou de 93 pessoas e destruiu cerca de 500 casas.

A contaminação por Césio 137 em Goiânia (1987), registrou um dos mais graves casos de exposição à radiação do mundo pelo menos quatro pessoas morreram e centenas de outras foram contaminadas.

Vazamento de óleo na Baía de Guanabara (RJ, 2000), um navio petroleiro vazou cerca ,3 milhão de litros de óleo in natura, provocando a morte da fauna local e poluiu o solo em vários municípios da região.

Vazamento de óleo em Araucária (PR, 2000), vazamento 4 milhões de óleo da refinaria Presidente Getúlio Vargas.

Vazamento de barragem em Cataguases (MG, 2003), rompimento da barragem de celulose, pertencente a Florestal Cataguases e Indústria Cataguases de papel, despejou 520 mil m³ de rejeitos compostos por resíduos orgânicos e soda cáustica. Foram atingiram principalmente os rios Pomba e Paraíba do Sul.

Rompimento de barragem em Miraí (MG, 2007), o rompimento de outra barragem de mineração com o vazamento de 2.280.000 m³ de água e argila (lavagem da bauxita). Mais de 4 mil moradores ficaram desalojados, quase um terço da população total da cidade.

Tragédia do Morro do Bumba (RJ, 2010), o deslizamento de terra soterrou centenas de casas e matou 48 pessoas. O terreno onde as casas foram construídas era um antigo lixão.

Chuvas na região serrana do Rio de Janeiro (2011), forte precipitação provocou uma série de deslizamentos e enxurradas destruiu casas nas regiões de encosta. Foram contabilizadas, aproximadamente, 800 mortes.

Vazamento de óleo Bacia de Campos (RJ, 2011), Deslizamento de terra soterrou centenas de casas construídas em cima de antigo lixão e resultou na morte de 48 pessoas.

Em novembro de 2011, vazamento de 3,7 milhões de óleo da Chevron no Campo de Frade. A mancha provocada pelo vazamento chegou a 162 km².

Incêndio na Ultracargo (Santos, SP, 2015), lançou efluentes líquidos no estuário, em manguezais e na lagoa contígua ao terminal.

Rompimento da barragem de Mariana (MG, 2015), o rompimento da barragem de rejeitos de mineração da empresa Samarco liberou de 62 milhões de metros cúbicos formando uma onda de lama de aproximadamente 10 metros de altura que destruiu a cidade de Mariana matando 19 pessoas e poluindo cerca de 600 quilômetros do rio Doce. Os danos ambientais e socais são incalculáveis, e se constitui na “maior tragédia ambiental da história do Brasil”. Entretanto, somente Minas Gerais, nos últimos 14 anos, ocorreram “acidentes” na Mineração Rio Verde, em Nova Lima (2001), na Mineração Rio Pomba Cataguases, em Miraí (2007), e na Mineração Herculano, em Itabirito (2014).

Vazamento de rejeitos da Hydro Alunorte em Barcarena (PA, 2018), causou danos a treze comunidades ribeirinhas, que dependem dos recursos naturais dos igarapés devido ao o vazamento de rejeitos químicos das atividades de processamento da mineradora Hydro Alunorte, de capital norueguês, reconhecida como a maior refinaria de bauxita do mundo.

A quase totalidade dos responsáveis por esses “desastres” jamais foram punidos, pouco repararam os danos causados, a maioria das multas não foram pagas e os atingidos quase sempre não foram amparados. Sou um defensor das instituições, mas essas tragédias apenas demonstram que há uma enorme distância entre o Brasil ufanista e o Brasil real. Ainda somos um embrião crescido esperando pacientemente para nascer.

Passados quase cinquenta anos da Conferência de Estocolmo, e da justificação desarrazoada da poluição e da destruição dos ativos da natureza na busca de indústrias a fim de gerar emprego para “o povo se desenvolver”, continuamos matando a galinha dos ovos de ouro.

Essa ainda continua sendo nosso principal desejo. Os contínuos desastres, não podem ser classificados como tal, é resultado de décadas de abandono, má fé, omissão. É a expressão de um país que notabilizou em fazer coisas pela metade, cuja principal virtude é trabalhar contra si mesmo, mas que busca desesperadamente alguém que nos salve dos nossos próprios infortúnios e esperando impávidos novos desastre, depois a gente lamenta, e é só!


[1] Sociólogo, mestre em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS – 2009), doutor em Desenvolvimento Sustentável (CDS-UnB – 2017), mestrando em Ciência e Tecnologia Ambiental (UFFS – 2018).

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