Memórias da Aldeia – Piá metido

Em meados da década de 1960, frequentava o feliz distrito de Baliza, com regular frequência. A vila era servida de várias casas de comércio, escola municipal, ferraria, bodegas, moinho, açougue, o Clube União (desde 1934), a Capela Nossa Senhora da Saúde, o Salão de Festas, curandeiros, ferroviários, barbeiros, professores, parteiras, costureiras, sapateiros, trabalhadores da agricultura e alguns bebuns que atormentavam o Povoado.
Enquanto perdurou o transporte ferroviário (até 1997), a Vila manteve a sua visibilidade. Hoje está semi favelizada e desabitada!
Muitos morreram, outros migraram e alguns continuam firme desafiando os novos tempos. Lembro de um senhor honesto e trabalhador, que com seus filhos construíam tanques e porões de alvenaria com muita arte e sabedoria. Chamava-se Olivério Pessoa e seus filhos, Geraldo e Nico. Falavam pouco e trabalhavam muito! Eram éticos e tinham muita paciência com as crianças.
Um belo dia, quando eles estavam fazendo o piso de alvenaria na residência da família Gazoni, eu, num misto de curiosidade e inconsequência, atrapalhei o trabalho do laborioso trio.
Eles diziam: cuidado guri! Não pise aí, que você vai estragar a massa!
Aí comecei perguntar o nome dos instrumentos de trabalhos… Para que serve isso? Para que serve aquilo?
O Geraldo Pessoa respirou fundo e disse:
– Isso serve para passar no nariz de piá que incomoda!
Tentei disfarçar que não entendi, mas no fundo, senti que a resposta era para mim, ainda que revestida de uma ternura viva e real.

 

Por Enori Chiaparini

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