Ondina Piaia deixará saudade

A ‘rebelde sem causa’ é dona de uma trajetória rica em detalhes

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Chegou à hora de viajar no tempo e conhecer a história de Ondina Maria Piaia, 86 anos, que nesta semana partiu, foi embora de forma rápida, deixando para trás muitas histórias e ensinamentos. Afinal, ela era uma ‘espécie’ de enciclopédia, dona uma trajetória rica em detalhes e aventuras, dividida em três momentos distintos. Nasceu em Guaporé, de família humilde, com 15 irmãos, Ondina conviveu com os familiares até os 19 anos, dedicou 25 anos a vida religiosa e há 41 residia em Erechim. Aos 17 anos e com apenas o terceiro ano primário concluído, foi convidada para ser professora, ministrava as aulas até o quinto ano. Aos finais de semana as irmãs (freiras), preparavam os conteúdos e a mesma os transmitia para as crianças. Também dividia o tempo com o namoro, sob o olhar atento de seus pais. Entretanto quando faltavam alguns meses para completar 20 anos, mudou-se para o convento em Santa Catarina, onde concluiu a 4ª e 5ª serie, o 1º e 2º grau ginasial e também exercia a doutrina como professora. Em 1957 ingressou na vida religiosa e seguidamente era transferida de localidade para poder estudar. Ondina era formada em Filosofia, Pedagogia, Teologia e, realizou duas pós-graduações. Sempre procurou aprimorar os conhecimentos. Prezava pela educação séria e crítica e quando terminou o primeiro ano do curso de Filosofia começou a questionar-se. Na última entrevista concedida ao Jornal Boa Vista ela disse: “Perdi os antolhos, aquela venda que eu tinha nos olhos, assumi as rédeas e comecei sentir o sabor da vida, questionar a congregação religiosa para promover mudanças, uma vez que o fundador não queria que as freiras estudassem e então, me rebelei”, revelou.

“Na época da ditadura, fui denunciada e perseguida”

Anos depois deixou a vida religiosa, por entender que podia realizar muitas ações fora das quatro paredes da congregação. Desde então passou a trabalhar em Sobradinho, onde presidia as aulas de Filosofia e Sociologia e foi perseguida em função da forma que ensinava. “As minhas ideias, forma de ensinar, incomodou muita gente. Era época da ditadura, fui denunciada e perseguida. Então, resolvi mudar para Erechim, uma cidade maravilhosa que me acolheu de braços abertos”, contou. Em Erechim, trabalhava na Delegacia de Educação, era supervisora e Assistente Social. “Trabalhava muito com o Círculo de Pais e Mestres (CPM), orientação de professores e acredito que tenha feito um bom trabalho nesta área”, afirmou.

Construímos a ATAPERS do zero

Em 1983 se aposentou como professora, começou a viajar e aderiu ao sistema financeiro de habitação para comprar o próprio apartamento. Contudo, os aumentos abusivos das prestações dos imóveis deixaram todos de ‘saia justa’ e Ondina, passou a organizar o movimento dos mutuários, com reuniões nos bairros, encontros, idas a Porto Alegre para negociar e baixar as prestações. “Acompanhei o movimento do pessoal que residia no Cachorro Sentado, quando foram transferidos para o Pro Morar. Na época, desenvolvemos uma cartilha para orientar as pessoas que viviam em condições degradantes” explicou. Junto ao movimento dos mutuários, Ondina promoveu uma ação a favor dos aposentados e pensionistas. “Construímos a ATAPERS do zero. Na época, não tínhamos espaço, quem dera dinheiro. Durante dois anos lutamos para criar os alicerces da associação e então, passaram a surgir aposentados de todos os lados. Luta dura, pois éramos considerados comunistas”, lembrou.

Quarenta e dois países e muita aventura

Ainda disse que graças à luta, protesto e indignação, em 1992 a ATAPERS denominou o cruzamento da Rua Itália com Av. Maurício Cardoso, como a esquina democrática. “A minha vida sempre foi pautada, mas meu pai me ensinou a lutar contra injustiças e ser humanitária. Sempre participei de movimentos, protestos e contestações”, afirmou. Além de ter participado de tantas ações, Ondina deixa um grandioso legado cultural, conheceu 42 países. “A minha história de viagens começou pelo Brasil, conheci sem auxílio de agências de viagem, tudo por conta e risco. Também me propus conhecer todos os países da America Latina, sem reserva de hotéis, só com o dinheirinho no bolso e muita aventura. Depois chegou a vez da América Central, Cuba e logo após, entrei em excursão pela Europa, onde conheci 14 países em 35 dias. Sem contar os países Nórdicos, África, Ásia, Rússia e tantos outros. Todas as viagens foram marcantes e impressionantes”, contou.

Apartamento ou viagem no tempo?

De cada país, Ondina guardou livros e muitas lembranças. Os mesmos eram espalhados pelo apartamento e as paredes decoradas com quadros, chapéus, pinturas e artesanatos. O colorido, detalhes e organização de cada peça impressionavam. Algumas expostas em mesas, estantes ou espalhadas pelos móveis, uma viagem no tempo. “Vou deixar para a comunidade de Erechim o que adquiri ao longo da minha história, como estímulo para as pessoas. Quero dizer que nunca é tarde, nada é impossível neste mundo. Quando a gente tem boa vontade, luta com garra, com teimosia inclusive, tudo dá certo”, finalizou.

Obs: A história conta com alguns relatos de Ondina, durante a última entrevista concedida ao Jornal Boa Vista.

Por Carla Emanuele

 

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