Moradores falam sobre o medo de viver no interior

O caso da idosa brutalmente agredida, na comunidade Rio Tigre, na sexta-feira, 26 de janeiro, reacendeu uma discussão que seguidamente volta à pauta nos jornais do Rio Grande do Sul e do Brasil: a falta de segurança para quem mora no interior.

Enquanto muito se discute maneiras de acabar com o êxodo rural, hoje, um dos principais motivos que tem levado as pessoas, principalmente as de mais idade, a deixarem o interior e mudarem-se para a cidade é a violência, pelo menos é o motivo apresentado por moradores com os quais conversei nos últimos dias.

Na parte baixa da comunidade Rio Tigre, os relatos são de que os furtos em residência estão se tornando cada vez mais frequentes. “Somem objetos das garagens, galpões, pátios. Quase todo mundo por aqui tem uma história assim para contar. Dias atrás me levaram um machado e uma pá. O machado era do meu avô, gosto muito de peças antigas e aquela tinha valor histórico para mim”, conta um morador.

 

Drogas

Segundo outro residente da comunidade, um dos grandes problemas seria o fato de o local servir de trajeto para o lago da barragem da Corsan. “Todos os dias um grupo de usuários de drogas passam por aqui e vão para o lago. Passam o dia lá, usam o local como balneário, se drogam e na volta tentam conseguir material que dê para trocar por mais”.

“É comum ver grupos de jovens indo para o lago da Corsan por aqui (Rua Virgílio Biolo). Vão lá para se drogar e mais tarde voltam, então a gente fica preocupada o dia inteiro”, relata outra moradora.

 

Violência

Mas o caso que acendeu o alerta vermelho na comunidade foi a agressão da qual a idosa Rita Poletto foi vítima. Com 77 anos, foi espancada com o cabo de uma espingarda por um rapaz de 18 anos, que entrou na casa para furtar. Com diversos ferimentos na cabeça, ela foi internada na UTI em estado grave e o autor das agressões acabou preso pela Defrec na madrugada seguinte. Em sua ficha, traz um latrocínio (matar para roubar) ocorrido quando ainda era menor de idade.

“O pai estava em casa, mas tem Alzheimer, não sai da cama e já não fala há algum tempo, mas ontem (sexta, 26) ele passou a noite chorando. Acho que viu o que o bandido havia feito com minha mãe, pois também havia sangue no quarto”, contou um filho de Rita Poletto.

Mas o caso da vovó Poletto não é o único registrado na cidade nos últimos dias Recentemente uma mulher foi agredida, com menor gravidade,  e amarrada em sua propriedade, às margens da Transbrasiliana, após dois homens invadirem o local para roubar. O caso também ocorreu pela manhã e os bandidos fugiram levando um aparelho de televisão e um forno elétrico.

 

Furtos

Os casos de furtos proliferam pelo interior. No início deste mês pelo menos três casas foram alvos de ladrões no Povoado Coan. Em uma das situações os bandidos levaram aproximadamente R$ 10 mil em mercadorias, segundo o proprietário de uma chácara. Em nenhuma das ocasiões havia moradores nos locais.

A maioria das ocorrências de furto costuma acontecer durante o dia, quando os residentes estão na cidade ou trabalhando nas lavouras, mas para quem acha que com a chegada da noite chega também o sossego, se engana. Casos de abigeato se alastram pela região. Suínos, bovinos, ovinos e até peixes são alvos dos criminosos. De acordo com relatos ouvidos por este colunista, na área da Transbrasiliana, alguns moradores chegaram até a desistir de criar animais.

 

Medo

Conforme os moradores de diferentes localidades o motivo que está levando alguns para a cidade e fazendo com que outros pensem em seguir o mesmo caminho, é o medo. “Aqui a gente não tem vizinhos perto, nem arma pode ter, então, é preocupante. Pelo menos na cidade temos pessoas mais próximas para buscar socorro em uma emergência”, diz um morador.

“Amo minha propriedade, o campo, mas como posso sair tranquilo para trabalhar sabendo que minha mulher ficou em casa e tem tudo isso acontecendo?”, diz outro.

“Não temos vizinhos muito próximos, então ficamos o dia inteiro com a casa fechada e cada vez que os cachorros começam latir, vamos verificar. Você acaba não descansando”, conta uma mulher.

 

Por Alan Dias

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