Memórias da Aldeia – A primeira vez

Se existe algo que me marcou de forma profunda minha infância foi a década de 196O, do século XX.

Estudei as primeiras letras na Escola Estadual Presidente Vargas, Linha 5, Gaurama. Foram mais de cinco anos. Devo ter rodado alguns anos; afinal, meu forte era brincar.

Meu primo Nestor Gazoni e eu só queríamos brincar. Às vezes me convenço que as crianças deveriam apenas brincar nos primeiros anos, com atividades leves e lúdicas.

O que fazem hoje com as crianças, no meu entender, não passa de um “equívoco amazônico”. Com quatro aninhos, desfilam como executivos com agenda cheia. Tenho sobrinhos assim.

Excesso de atividades e preocupações destroem a infância.

Claro que eu também comecei a trabalhar bem cedo, como filho de pequenos proprietários na agricultura. Até os 13 anos, estudava de manhã e ajudava meu pai na lavoura à tarde. Nos primeiros anos do primário meu pai era caminhoneiro. Viajava (com um caminhão Alfa Romeu, toco, FNM) para São Paulo e Rio de Janeiro.

Confesso que eu tinha muitas dificuldades para aprender até coisas simples. Sentia muito a ausência do meu pai. Minha mãe era uma líder destemida (ainda que doente).

Cuidava dos filhos e da casa. Tínhamos muitas atividades: potreiro, chiqueiro, galpão e as coisas da lavoura. Minhas primas Sueli Budini e Lourdes Bortolon ajudavam muito. Era impressionante o nível de disposição e entusiasmo dessas duas gurias… Levantavam ainda escuro e exercitavam o trabalho o dia todo como se estivessem rezando: com garra, brio, sem queixas.

No tempo em que meu pai esteve ausente, foram para mim os dias mais doloridos. Quando se avizinhava a noite, minha mãe tomava todas as providências: cachorro amarrado, espingarda 36 carregada, portas com trancas.

Acontece que lá em casa nosso galinheiro era muito visado. Perdi as contas dos tiros que minha mãe disparou no meio da noite, fazendo os amigos do alheio dispararem.

Os meliantes sabiam que o patrão estava distante… Mas um belo dia meu pai se convenceu que o mais importante era ficar próximo da família. Há poucos dias, meu pai (no alto de seus 88 anos) me confidenciou que um dia ele entrou na Igreja na Praça da Sé, no coração da cidade de São Paulo, e rezou uma oração, ciente de que ficaria mais próximo da esposa e dos filhos. Para mim foi um alívio.

Um belo dia foi organizado um baile na escola Presidente Vargas, com o conjunto Jaz Garoa de Ouro, do meu amigo Nelson Sirena. Eu não tinha mais de dez anos.

No início do baile, o Nelson falou que as primeiras duas músicas seriam especialmente para as crianças dançarem. Os adultos respeitaram com muita classe.

Dancei as duas peças com uma coleguinha de olhar doce e educada. Mesmo sem saber dançar, mas sentido as batidas rápidas no lado esquerdo, se fez por um instante que a vida pode ser sublime. Foi minha primeira dança. Minha primeira vez, que ainda permanece…

Por Enori Chiaparini

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