A história de Lilinho

Sobre a morte Kocács afirma que há a conspiração do silêncio em três esferas da vida: 1) com os professores, 2) com os pais e 3) com os profissionais da saúde. Só falarei nesta crônica em relação aos pais, os quais não sabem se devem ou não contar sobre a morte de um animal de estimação ou mesmo sobre a morte de parentes, de pessoas queridas, especiais, aos filhos pequenos. Corrobora neste sentido o comercial da Panvel em estilo branded contente. Não é uma simples divulgação da marca através de um comercial usual. Utilizam uma história atrativa com a intenção não só de entreter através de elementos que instigam sua curiosidade para acompanhar o comercial até o fim, sem aquela ideia de interrupção associada aos horários de intervalo dos programas. Em resumo, somos capturados pela beleza do comercial que não fala do produto, mas nos vende emoções.

A história do Lilinho (http://www.youtube.com/watch?v=Bhoif3IcRuo) de autoria de Pedro Goulart baseada na crônica de sua autoria: Peixe Lilinho.

Querida filha, só estou escrevendo esse texto porque você ainda não sabe ler. Do contrário, eu não escreveria. É que você ia ficar bem chateada em saber que o seu peixe, o Lilinho, morreu.

De modo que aquele que está no seu aquário agora é bem parecido, mas não é o Lilinho. Sua mãe – as mães são assim -, sem que você soubesse, resolveu comprar outro e por no lugar dele. Foi uma coisa bem rápida, filha: você acordou, contou que o Lilinho estava dormindo de maneira estranha, “de cabeça para baixo” e logo vimos o tamanho do problema.

Foi então que tivemos que decidir entre contar a verdade ou driblar o destino. Deixar que essa fatalidade tomasse conta do seu coraçãozinho em formação ou desafiar as possíveis consequências de uma mentira como essa. E se você notasse? E se você viesse a perceber a diferença de tamanho? Ou pior, se descobrisse uma nadadeira a menos?

Ainda bem que nada disso aconteceu. Ainda bem, minha filha. Seus pais conseguiram adiar minimamente esse sentimento terrível que a perda dá. Fatalidades não são algo que crianças tem que saber. Crianças, aliás, não deveriam saber de nada ruim – somente que os peixes nadam, que os passarinhos voam, e que os avôs avoam.

Por isso mesmo é que estou aqui, contando essa história. Para que você um dia saiba que a sua mãe e o seu pai interferiram no circuito; e deixaram ele menos curto. Fica então uma dica pra você, sempre que possível, interfira: nada precisa ser como é.

O comercial é lindo e emociona, mas revela a dificuldade que os pais tiveram em falar a verdade sobre a morte, que ela existe e faz parte da vida e do viver. Ao contrário, não falar implica que determinado assunto não existe, neste caso a morte não existiu. A solução dada pelo comercial para a morte do peixe está no capitalismo, no mercado, no consumo.

A receita é muito simples: os pais compraram outro peixe, e providenciam a substituição do peixe morto, “enganando” a filha. Com um peixe é possível fazer a substituição, mas quando se tratar de uma pessoa? A solução ao “problema” encontrada pelos pais tem a intenção de evitar a dor, a frustração, e, sobretudo sentir a dor que a perda traz a todos nós. O recado dado é: não precisamos sentir, não precisamos chorar pela perda de algo ou alguém que nós gostamos. Com essa atitude, os pais perderam a chance de trabalhar e educar para morte, para o luto, para a perda com a filha. Esquecemos com essa atitude que as adversidades, as frustrações nos tornam mais fortes para enfrentar a vida.

Os pais denunciam dessa forma a própria incapacidade de encarar e lidar com a morte e com a perda. Necessitando driblar, distorcer e negar com veemência o ocorrido. Atitude ilusória de que ao longo do ciclo de vida dos filhos perde-se muito mais que “peixes de cabeça para baixo”. Por vezes sem possibilidade de substituição. Por tratar de coisas que não são tão insubstituíveis ou compráveis em templos de consumo, são da ordem do coração, da alma e do sentir. Essas requerem lidar com a perda, com a dor que a perda traz.

Maria Emília Bottini

Psicóloga clínica da InterAções Psicologia Aplicada

Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF)

Doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB)

Autora do livro No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer

Coordenadora do projeto: No cinema e na vida e do Café Sensorial

E-mail: [email protected]

 

 

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