A greve dos caminhoneiros: impressões positivas e negativas

Em 25 de maio de 2018, uma sexta-feira que parecia de verão em pleno outono, visitei o principal protesto caminhoneiro na região norte do RS: as margens da BR 285, em frente ao Posto Buffon, em Passo Fundo. O sol e calor estavam agradáveis nesse recanto da América Latina tido como gauchesco.

Uma bandeira nacional pendurada num imenso guindaste era o centro dessa concentração pacífica. Mais de cem veículos pesados – novos e velhos, nacionais e importados – estavam estacionados em volta da rodovia numa manifestação de poder numérico. Também havia alguns tratores e, infelizmente, veículos de pulverização, dos quais mantive distância por conhecer o estrago dos agrotóxicos. Os caminhoneiros fiscalizavam o tráfego, recebendo buzinadas de apoio e até presentes, como uma colossal pizza doada por um restaurante passo-fundense, devorada em poucos minutos. Tal multidão não foi afrontada por ninguém, mesmo porque, conforme explicado por Freud, instintivamente as massas intimidam. Sobretudo num momento delicado como o atual, próximo de eleições presidenciais a serem disputadas por Jair Messias Bolsonaro, herói mítico para uns, fascista ditatorial para outros.

Não sei se, na teoria marxista, possuir uma carreta Scania significa ser “proprietário dos meios de produção”, porém tais motoristas certamente não eram “burgueses” no sentido tradicional. Também não eram “granjeiros”: não havia nenhuma caminhonete Hilux ou Ranger com agroboys escutando música sertaneja embriagados de cerveja. Aliás, não vi consumo de bebidas alcoólicas, apenas de humildes pães-com-linguiça servidos numa mesa improvisada, com uma fila enorme rigorosamente respeitada por tais homens simples, negros e brancos, que até pediam doações de leite, água e papel higiênico para aguentarem os dias acampados longe da família. O clima era de companheirismo e cordialidade, com senhores rústicos conversando sobre pneus, carrocerias, mecânica, estradas, churrasco, futebol, mulheres, contas a pagar, juros, pedágios e, claro, o preço do diesel.

Enfim, tal ambiente estava próximo do humilde bairro Zachia não apenas geograficamente. Também o estava humanamente, repleto de trabalhadores pertencentes às classes C e D que não se sentiriam à vontade caso fossem levados para comprar ternos ou perfumes no shopping center Bella Città. Alguns deles denotavam humildade, e até imundície relaxada, com sorrisos desdentados ou caspa nos cabelos despenteados. Havia nordestinos, paulistas, afrodescendentes, mulatos e cafuzos – embora, naquele ambiente machista, dificilmente alguém se sentiria à vontade para declarar-se homossexual ou índio guarani de reserva protegida pela FUNAI.

De qualquer modo, tais caminhoneiros poderiam ser classificados majoritariamente como trabalhadores explorados, talvez até como proletários no sentido marxista. Ao invés de “coxinhas” conversando sobre roupas Lacoste ou óculos Ray-Ban, havia ali homens (de uma profissão onde as mulheres ainda são discriminadas) com as mãos sujas de óleo preocupados em como quitar as dívidas com multinacionais estrangeiras. Parece contradição o fato dessa gente não ter sido apoiada por partidos de esquerda, seja da ala moderada, como o PT, seja da ala radical, como o PSOL. Também espanta o fato de eles eventualmente aprovarem partidos como o PSDB, pseudo-socialdemocrata, representante de herdeiros cuja fortuna vêm de gerações distantes.

Minha simpatia inicial pela paralisação se ligava a razões econômicas, pois também gasto parte considerável de meu salário com combustível, produto extorsivamente tributado no Brasil. Todos os meses, percorro mais de 2 mil quilômetros com meu Volkswagen para trabalhar na cidade de São José das Missões e retornar nos fins de semana. Não tenho uma gigantesca carreta Mercedes-Benz, MAN ou Volvo, porém meu singelo Gol 1.0 já me coloca no mesmo drama dos caminhoneiros.

A primeira parte do meu artigo termina aqui.

Após relatar as impressões positivas sobre os grevistas que conheci nas margens da BR 285, naquela ensolarada tarde passo-fundense de maio, gostaria de expor minhas críticas à essa classe (e aos que se aproveitam politiqueiramente dela). São intensas as divergências, sobretudo culturais, que me fazem desconfiar daqueles que defendem o lema autoritário “Intervenção militar já!”

Sou formado em Direito, estudei muito a Constituição Federal de 1988, acredito em reformas graduais via debate democrático, e tudo isso me faz repudiar ditaduras – inclusive as marxistas, do tipo associado à Fidel Castro e Che Guevara. Não acredito que generais e coronéis especializados em burocracia estatal sejam capazes de sanar problemas econômicos. Talvez com algum bairrismo, repudio a ideia de oficiais nascidos no Rio de Janeiro ou na Bahia serem nomeados interventores em Porto Alegre, impondo regras que afetam diretamente meu cotidiano. Embora não seja liberal, desconfio daqueles que pregam fórmulas messiânicas para aumentar as competências do já inchado Estado brasileiro. Sobretudo quando tal estatismo prioriza o governo federal de Brasília – cidade que nunca conheci – em vez dos poderes municipal e estadual. Venero a Brigada Militar rio-grandense, instituição sempre próxima de mim, cujos salários estão atrasados, porém desconheço a importância dos milionários caças suecos Gripen comprados para a Aeronáutica.

Muitos dos caminhoneiros com os quais conversei são veteranos das Forças Armadas. Serviram sobretudo em quartéis da Campanha Gaúcha, como Alegrete e Uruguaiana. Isso talvez explique a nostalgia deles com relação à Ditadura Militar instaurada em 1964. Eu, pelo contrário, não fui recrutado quando fiz meu alistamento (já estava na universidade), acabei dispensado como a maioria esmagadora dos jovens que estudam em escolas particulares. Tenho ótimos amigos que foram oficiais do Exército e sou estudioso da Segunda Guerra Mundial, porém não vivenciei pessoalmente a rotina marcial patriótica que faz tantos veteranos engrandecerem os nomes de Castello Branco, Costa e Silva, Médici e Geisel.

Não aprovo que classes profissionais manipulem o nacionalismo em prol de interesses corporativistas, mesmo legítimos. Quando uma greve contra a tributação dos combustíveis virou uma tentativa de subverter toda ordem constitucional vigente, deturpou-se num exclusivismo sectário que não combina com o republicanismo. Infelizmente, muitos militares, da ativa ou da reserva, incorrem na mesma soberba: só confiam plenamente em quem já serviu num quartel, desmerecendo quem teve a sorte ou o azar de não sentar praça. Abomino que alguns intelectuais de esquerda só valorizem livros compatíveis com Karl Marx. Também alguns evangélicos só escutam música gospel e isolam-se em pequenos grupos seguidores da Bíblia. No caso atual, será justo que certas lideranças surgidas entre 2 milhões de caminhoneiros, às vezes com vantagens obscuras, tentem exigir que uma nação continental de 200 milhões fique sob o jugo das armas?

Outro comportamento que talvez tenha ligação com o militarismo: as ameaças e agressões violentas. Tive o infortúnio de presenciar isso pessoalmente. Não em Passo Fundo, mas na cidade gaúcha de Constantina, quando, voltando do trabalho, os grevistas me obrigaram a parar o carro por cinco minutos no acostamento da BR 386 como “apoio” à categoria. “Caso contrário, vai ter pedrada no para-brisa”, gritou um deles.

Militares aprendem brutalmente a disparar fuzis e canhões. Caminhoneiros vivem numa rotina rústica de asfalto. Nessas duas classes, que recentemente se mostraram conexas, sei que poucos prestigiam minha grande paixão: a literatura. Não consigo imaginar algum dos grevistas que conheci numa livraria comprando meus livros sobre o nazismo. Nem como alunos meus numa faculdade de Direito ou História. Ainda não vi os grevistas usarem o talento sertanejo de Chitãozinho & Xororó para escrever um texto inspirador sobre projetos de médio ou longo prazo. Se adotasse o mesmo critério deles – o interesse próprio, sobretudo econômico –, não teria muitas razões para apoiar a paralisação, que me trouxe transtornos.

Confesso que não sou um nacionalista brasileiro. O verde e amarelo que, recentemente, mais tem me empolgado é o das bergamoteiras que procuro para saciar-me sozinho. Quanto à países estrangeiros, receio a admiração frequente pelos Estados Unidos (e por Cuba e Venezuela mais ainda). Acho patético que alguns caminhoneiros tentem fantasiar-se de cowboys texanos fumando Marlboro e adotando os valores que assistem nos filmes de Faroeste. Ainda pior é o fato de alguns enxergarem o capitalismo americano, tão diferente do nosso, como modelo a ser copiado nos trópicos. Minha pátria espiritual é a Alemanha, terra dos pensadores e poetas, cuja estabilidade democrática pós-Segunda Guerra Mundial fornece lições de seriedade menosprezadas pelos radicais, de direita e de esquerda.

Os últimos anos deixaram avisos incontestáveis. É crescente a insatisfação: contra as ditaduras bolivarianas comunistas, todos falidas; contra a subversão da família e do cristianismo; contra a doutrinação nas escolas e universidades; contra a sexualização infantil; contra a apologia ao crime; contra a inversão de valores pregada pela Rede Globo em suas novelas. Mesmo assim, num momento em que a direita – tanto liberal quanto conservadora – cresce entre o eleitorado, seria um equívoco repugnar completamente os bons legados deixados pela esquerda democrática. Partidos como o PT investiram em educação, cultura, assistência social e redução de desigualdades. Não poderão ser cauterizados como se fossem uma praga. Ainda representam milhões. A legítima aversão às revoluções comunistas não dá a ninguém o direito de copiar Augusto Pinochet. Sou um intelectual das Ciências Humanas sem partido nem ideologia fixos, por falta de maturidade, mas para os que acreditam num futuro melhor via blindados e censura, gostaria de parafrasear convictamente o personagem Pedro do velho seriado Carga Pesada: “É uma cilada, Bino!”

Acredito na renovação via juventude. Tanto que, nesse momento, reviso o presente artigo lendo-o para meus alunos da 6º Série da Escola Manoel Ribeiro da Conceição, no município de São José das Missões. Sentiria orgulho se no futuro visse algum deles como tenente ou motorista. Meu maior medo é a imbecilização causada pela dependência no mundo digital, inclusive entre adultos, que favorece o lado mais superficial, imediatista e manipulável da psique humana.

 

Por Samuel Schneider – advogado, historiador, professor e escritor

(samuelceluppischneider@hotmail.com)

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