Barra do Rio Azul: o jovem em primeiro lugar

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Por Carla Emanuele

 

Dentro do projeto proposto pela Rádio Cultura e Jornal Boa Vista – Integração Regional, desde que a emissora completou 16 anos de história, em setembro, o objetivo tem sido conhecer a trajetória dos 32 municípios da região. Por hora, o presidente da AMAU e prefeito de Jacutinga, Beto Bordin, fez parte desta iniciativa. Nesta semana, foi à vez de um municípioainda pequeno, mas com uma pujança econômica grandiosa, Barra do Rio Azul. O prefeito, Marcelo Arruda, relatou desde o número de habitantes, até a incessante busca pela permanência do jovem no campo. A seguir os principais trechos da entrevista com Arruda

 

Qual o número de habitantes, eleitores e principal fonte de sustento da população?

Barra do Rio Azul conta com dois mil habitantes, 1700 eleitores e tem essência e vocação na agricultura – 95% dos habitantes vivem da agricultura. Destes, 60 são propriedades de suinocultura, 29 de avicultura e 140 estão focadas no gado leiteiro, garantia de renda mensal. O município também tem conquistado espaço na fruticultura, deixando de lado os grãos, pois precisa ter muita área para obter retorno. Gado de corte também faz parte da economia e não exige excessiva mão de obra.

 

A paróquia representa um marco na história do município?

A igreja é um cartão postal. Eu falava com o bispo e o relato é de que a paróquia Nossa Senhora da Medianeira foi a primeira no interior. Ela é motivo de alegria para a comunidade que, com muito esforço e ajuda da administração mantém o que considera patrimônio e referência no Alto Uruguai e até no Estado.

 

Qual o orçamento do município?

O município conta com orçamento de R$ 800 a R$ 900 mil reais mensais, tendo arrecadação extra no final do ano, que chega a 12 milhões.

 

Em função de a economia ser essencialmente agrícola, o que tem sido feito para potencializar essa produção, a fim de levar mais qualidade de vida aos moradores e ao mesmo tempo, arrecadar para o caixa da prefeitura?

Observamos atentamente a realidade do município, pois não adianta termos a utopia e iludirmos a população de que vamos conseguir trazer uma grande empresa para Barra do Rio Azul. Analisando que a população diminuiu, mas a produção aumentou, a agricultura tem sido a grande essência. Com isso estamos trabalhando com as famílias para melhorar as propriedades. Tenho a visão de que o agricultor precisa modernizar e automatizar suas localidades em função da falta de mão de obra. Com relação ao gado leiteiro, estamos mostrando que eles precisam ter a sala de ordenha. Hoje, de 140 propriedades, só 14 as tem, o que acaba dificultando a permanência na atividade. Também lançamos um importante programa de incentivo à suinocultura e biossegurança, onde estamos subsidiando 75%, cerca de R$ 16 mil da estrutura para cercar as pocilgas.  Até o final do ano todos os produtores devem estar adequados, caso contrário não poderão mais alojar suínos. Tal incentivo motivou as pessoas aumentaram as pocilgas.

 

O que fazer para que os jovens encontrem alternativas para ficar no campo?

Acompanho desde pequeno que o jovem é programado e preparado para sair da agricultura. Ele escuta o pai dizendo que é ruim ser agricultor, na escola aprende que tem que estudar e ir embora, entre tantos outros exemplos. Em Barra do Rio Azul este ano, começamos um trabalho reverso, estamos conversando com escolas, Emater, entidades e famílias, para fazer com que os jovens fiquem no campo. Eles podem ser feliz em Barra do Rio Azul, Ponte Preta ou qualquer outro município sendo agricultor, mas precisam ser valorizados, buscar a autoestima, as propriedades na nossa região são empresas rurais. Tem famílias que ganham R$ 5 mil, e aquelas que faturam R$ 70 mil. O jovem irá permanecer se a propriedade se modernizar, ele não quer mais trabalhar no pesado, deseja uma produção automatizada. Sem esquecer que a juventude precisa ter lazer. Temos que encontrar uma forma de as integradoras remunerar o integrador durante o período de férias, afinal eles precisam descansar e se divertir.

 

O presidente da Aurora anunciou o aumento do abate de suínos na região. Como o município está se planejando para melhorar a produção?

Desde janeiro estamos subsidiando 80% da terraplanagem para quem realizar qualquer investimento na suinocultura ou, outra atividade. Estamos aproveitando essa ampliação da Aurora para os produtores expandirem suas pocilgas de 500 para 1000 ou 2000. Percebo que na agricultura a questão de parceria envolve quantidade para se ter retorno financeiro. Tem que automatizar para produzir mais.

 

Atualmente qual a maior preocupação da municipalidade, o principal gargalo?

Permitir que a população jovem permaneça na propriedade é o maior desafio do nosso município e da região. Nas reuniões da Amau tenho comentado que precisamos falar a mesma língua, mostrar o quanto a agricultura é importante, uma atividade para se ter orgulho.

 

 

Como Barra do Rio Azul e Amau estão percebendo o sério problema da Fundação Hospitalar Santa Terezinha?

Nosso município utiliza muito os serviços de saúde de Aratiba, é nossa primeira porta de entrada, o que não se resolve lá, vai para o Santa Terezinha. Esperamos que se encontre um equilíbrio nas contas, pois a fundação é muito importante, principalmente no tratamento do câncer. Diariamente formam-se filas de vans no entorno da casa de saúde. Todos os municípios precisam ajudar um pouquinho e nós estamos comprometidos com essa causa.

 

 

Como você vê a relação de Barra do Rio Azul com Erechim, é possível estreitar laços?

Erechim é o nosso município mãe, referência regional, tem que cada vez mais chamar a responsabilidade para si, sendo propulsor de desenvolvimento. Tem um papel fundamental junto aos municípios da região, para que consigamos melhorar a qualidade da saúde e principalmente, dos acessos asfálticos. A nossa região é a mais desassistida. Dos 32 municípios, 11 ainda não têm asfalto.

 

Você acredita que até o final do seu mandato vai ter asfalto?

Não acredito. Há pouco tempo participei da comitiva que visitou a secretaria de Transportes  do Estado e tive a ousadia de perguntar: “secretário eu sei que o senhor tem mais dois anos de mandato e acredito que não vai conseguir concluir os 67 acessos asfálticos necessários, mas se contabilizarmos mais uma gestão, o senhor acha que serão concluídos?”. Brevemente ele respondeu que não.

 

Como tem sido a busca pelo acesso asfáltico?

Estamos batalhando para que o nosso acesso seja pela ERS 420, na Santa Cruz. É uma estrada municipal onde 2 km pertencem a Erechim, 5 km Aratiba e 10 km a Barra do Rio Azul. Pelo projeto do Daer, de 1998, a nossa ligação seria por Itatiba e depois ligaria com a 480, um caminho mais longo, com custo elevado para o Estado. Pensando nesta demanda antiga, estamos realizando economia frente à administração, guardando recursos, analisando as linhas de financiamento e também batalhando com os deputados federais para conseguir fundos para investir na pavimentação deste trecho. Nosso propósito é tentar fazer um quilômetro por ano, chegando a quatro quilômetros. Quem sabe, a próxima gestão faz mais quatro, aí chegamos à divisa do município. Ainda, temos a convicção que Aratiba e Erechim vão contribuir. Erechim ficaria responsável por dois quilômetros e Aratiba os outros cinco, já que eles têm um orçamento de 55 milhões.

 

O município está cansado de esperar pelo Estado?

Não adianta esperarmos, sabemos a realidade que o Rio Grande do Sul vive. O Estado enfrenta dificuldades, mas algumas ações são difíceis de compreender. Para desenvolver um município, independente se é agrícola ou industrial, sem acesso asfáltico não tem como falar em progresso.

 

O Alto Uruguai não tem um representante em Brasília. Você acha possível unir a região e descobrir um nome para eleger a deputado para não ficarmos só com as migalhas, mas com uma fatia do bolo?

O sonho de todo mundo é encontrar uma liderança que consiga unir a região, mas o poder dos parlamentares com as emendas é muito forte. Segurar os 140 mil votos aqui é muito difícil. A região vive um completo abandono. Sempre falo que ir a Brasília é uma humilhação. Tem que bater de gabinete em gabinete, implorando para conseguir uma migalha aqui, outra ali. Se tivéssemos um deputado na região, os 15 milhões ficariam no Alto Uruguai e ratearíamos entre os municípios. É claro, seria necessárias consciência e união para esse fato histórico ocorrer.  Neste momento, sinceramente não acredito ser possível unir todos os partidos. Acompanho Erechim há anos e sei que 60% dos votos vão para fora.

 

Como tem sido as feiras realizadas no município?

A cada dois anos promovemos a feira. Ela começou como uma mostra agropecuária e se tornou um expressivo evento. Estamos nos organizando para realizá-la de 16 a 20 de março de 2018. Queremos valorizar as palestras, tornando o evento cultural e técnico, para que os visitantes agreguem conhecimento e novas experiências. Os shows serão realizados, mas ficarão em segundo plano. Não vamos ficar pensando em grandes nomes e investir um valor significativo, porque em uma hora o show acaba. Vamos concentrar forças nos palestrantes do setor leiteiro, que é o nosso foco para o próximo ano, gado de corte e a suinocultura, uma das principais atividades. Queremos mostrar as potencialidades do município e explanar que a agricultura é viável, que vale a pena permanecer no campo com modernização.

 

De que forma a municipalidade tem mostrado a importância da inovação?

Para quebrar alguns tabus e a cultura dos gringos do município, estamos sempre em busca de novas ideias. Muitos agricultores quando o assunto é inovação, bloqueiam e logo dizem, “vamos ficar mais cinco anos no interior, não vamos investir e também não sabemos se a piazada vai assumir a propriedade”. Estes agricultores são os que ficam até que podem no meio rural, muitos até os 75 anos ou mais. Para quebrar esse gelo e paradigma, o secretário de Agricultura e a Emater estão colocando o agricultor e sua família no carro e levando até propriedades que foram modernizadas, muitas em Aratiba. Quando o agricultor ouve o relato daquele que investiu 50 ou 70 mil, passa a questionar-se porque não inovou antes. Em propriedades organizadas, rapidamente é possível tirar leite, sobra tempo para organizar outra atividade e ainda, ter qualidade de vida. Muitos comentam que não dói mais as costas e nem os braços. Quando o agricultor conhece na prática o funcionamento de uma propriedade modernizada, a vontade de querer investir é maior. Estamos tendo êxito. De cada 10 agricultores, oito estão se animando e investindo na propriedade.

 

Como Barra do Rio Azul tem tratado a política local?

Em Barra do Rio Azul concordamos que é importante a alternância, mas o momento é de união e consenso. Com o tempo, conseguimos promover a mudança de mentalidade, não agir por interesse político de concessão, por que esse é meu amigo ou, aquele eu tenho interesse na próxima eleição. No município tem se tratado todo mundo igual, dando oportunidades aos habitantes, isso é produtivo.

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