Que os ensinamentos destes gigantes nos tornem mais humanos

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Direto de Chiang Mai. Tailândia

Sinto até hoje o cheiro da mata, dos elefantes, das frutas que cercavam aquele ambiente, no extremo norte da Tailândia, no fim de 2016. A temperatura beirava os 30º C, e tudo parecia mágico. Especial. Era minha primeira vez em contato com aqueles nobres gigantes – trazendo um contraste gritante com o meio ao qual estamos acostumados a conviver, onde falta (cada vez mais) gentileza e respeito e sobra intolerância e egoísmo. A regra é ter posição sobre tudo, de preferência, contra aquele que não pensa do mesmo modo do que eu, ou meu grupo.

Esta matéria, que publico em caráter inédito no BV de hoje, busca resgatar doces lembranças – mas, também, alertar sobre os cuidados que devemos ter em relação à existência humana e aos demais seres vivos, em especial, no caso, os elefantes – animais tão sensíveis e que tem tanto a nos ensinar, especialmente, nas relações familiares, desgraçadamente distorcidas no Brasil contemporâneo.

Ao longo do texto, tento mostrar o porquê. Boa leitura.

 

Jamais monte num elefante, especialmente, nos ‘campos de elefantes’ distribuídos pela Ásia e África.

Não contrate ou pague por atrações artísticas que envolvam estes animais sem antes saber o histórico das organizações/entidades que estão promovendo as atividades. Na dúvida, não compre ou contrate nada do tipo.

Não compre esculturas, joias ou lembrancinhas feitas de marfim (as vindas da China, então, nem se fale).

Esqueça os circos que usam e abusam das habilidades destes gentis gigantes. Prefira, aliás, os circos que não utilizam animais. Nenhum deles!

Pronto. Acredite, parece pouco, mas não é.

Fazendo isso, você já está colaborando para que os elefantes que ainda restam no mundo (mapeados seriam pouco mais de 400 mil: aproximadamente 332 mil na África e 70 mil na Ásia) continuem pela face da terra por mais um tempo, uma vez que muitas de suas ramificações estão na ‘lista vermelha’ dos animais em risco de extinção, segundo a União para Conservação da Natureza (IUCN RedList, em inglês).

Para se ter uma ideia, os elefantes de savana africana, por exemplo, tiveram uma redução superior a 30% apenas entre 2007 e 2014, quando mais de 144 mil deles foram mortos, aponta o Grande Censo dos Elefantes (GEC, em inglês), realizado recentemente. Neste ritmo, eles somem do mapa em poucas décadas. Na Ásia, o quadro se repete, em países como a China e o Laos.

Para entender melhor a situação de risco dos elefantes – que são os maiores animais terrestres (entre os mamíferos, só perdem para as baleias azuis) –, fui ao Norte da Tailândia, na cidade de Chiang Mai, passar um dia inteiro com 71 elefantes asiáticos no Elephant Nature Park – um santuário que, sem fins lucrativos, resgata, cura e abriga os elefantes explorados das mais diversas formas em toda a Ásia.

A entidade também atua na regiões Sul do país (ilha de Pukhet), Nordeste (Surin) e Oeste (Kanchanaburi), além do Camboja, e está abrindo as portas no Laos e, futuramente, no Sri Lanka (onde os elefantes ainda são considerados sagrados).

Mais do que viver uma experiência incrível, a visita permitiu conhecer como os animais se comportam em meio à natureza e, especialmente, tentou desvendar o que os está matando.

É disto que vamos falar a partir de agora.

 

Revendo conceitos de ‘turismo’

Quem nunca sonhou em montar num elefante e do alto dos 3 metros do animal desbravar as florestas da Tailândia, ou seja lá onde for e, claro, tirar uma selfiezinha pro Facebook ou Instagram? Muita gente, né!

O ato ‘bonitinho’ não envolve deliberada má fé, nem nada. É só pagar um tour qualquer (que pode ser contratado até mesmo do Brasil), chegar lá, montar nas costas do grandalhão e eternizar o momento. Certo?

Errado!!!

Pois, saiba que para você subir num ‘elefante de turismo’ ele/ela, em 99% dos casos, teve que passar por um cruel processo de doutrinação, chamado de ‘thephajaan’, ou ‘quebra do espírito’ – que vale também para os ‘elefantes pintores’ das ruas de Bangkok ou os ‘elefantes-artilheiros’ que demonstram destreza ao fazer seus gols em campos forjados para atrair uma plateia desinformada.

A ‘quebra do espírito’ é um processo sinistro e consiste, basicamente, em encarcerar o animal, deixando-o amarrado, sem comida, sem bebida e sob tortura, incluindo espancamentos durante dias, ou até mesmo semanas. Isso faz com que o elefante – muitos deles ainda bebês – percam seu ‘espírito’, suas vontades próprias, seus desejos – e se tornem totalmente submissos aos mandos e desmandos de seus donos, que só pensam no dinheiro.

Algo muito parecido acontece em diversos circos mundo afora, inclusive no Brasil.

Envolvidos neste tipo de ‘trabalho’, a vida dos elefantes – que deveria chegar até os 60, 70 anos em média, se reduz drasticamente. Além do que, sem os laços familiares, a existência destes animais fica vazia, tamanho o grau de proximidade entre mães e filhos.

Para você que já montou, comprou pinturas feitas por elefantes e tudo mais e ainda gostou, peço desculpa, mas essa é a verdade: eles sofreram muito para que você pudesse se divertir.

Uma ideia bem legal, que pode substituir a barbárie disfarçada de entretenimento, é  procurar por centros/santuários que realmente se preocupam em proteger os elefantes. Garanto: é muito mais gratificante vê-los brincar entre eles e andar ao lado pela mata e nos rios (participar dos banhos é muito divertido, e eles gostam), do que em cima destes grandalhões que chegam a pesar, no ramo asiático, 5,5 toneladas, e no ramo africano mais de 7 toneladas.

Infelizmente, porém, não é apenas o ‘thephajaan’ (ou o turismo mascarado) o grande causador de ameaças aos elefantes – que, na natureza, não tem predadores naturais.

O crescimento demográfico das populações humanas, que passaram a ocupar – seja com moradias, barragens, indústrias ou plantações – o habitat anteriormente preenchido pelos animais; o contrabando de marfim (especialmente para a China e os EUA, envolvendo os elefantes africanos); o trabalho pesado de carregar madeira em regiões montanhosas (uma tradição que ainda mantém financeiramente milhares de famílias); e a caça predatória se destacam nesta lista; que ainda tem as alterações climáticas jogando contra.

Há muito, pois, o que fazer. Mas, é preciso começar. Por isso, é importante ver, e apoiar, instituições como o Elephant Nature Park, International Elephant Fundation, a IECN RedList, o WWF, e outras tantas que lutam como podem, enquanto há tempo.

Lembra dos Mamutes? Pois é, eles também eram uma espécie de elefante… que já não existe mais…

 

Outras formas de ajuda

Caso você esteja interessado em ajudar mais – e aqui em Erechim temos muitos exemplos de pessoas que se dedicam, de verdade, aos animais – há vários sites e blogs na internet que indicam os melhores caminhos a seguir, e como fazer.

Mais uma vez, antes de qualquer ação, certifique-se da idoneidade dos grupos que estão por trás das respectivas iniciativas – que podem ir desde ‘adotar’ um elefante (processo pelo qual você passa a bancar um valor mensal/anual para ajudar  a manter o animal num santuário próprio para ele); passando por doações de diversos montantes; até a realização de trabalhos voluntários em santuários espalhadores pelo planeta.

Para se ter uma ideia, o Elephant Nautral Park, da Tailândia, tem a opção voluntariado com vagas esgotadas até o fim de 2017 – pela qual o visitante-voluntário paga um total de 12 mil Baths tailandeses (cerca de R$ 1,2 mil), e passa uma semana por lá pegando no batente (trabalho braçal mesmo), e vivendo com os gigantes.

 

Em tempo

Além dos 71 elefantes, o Elephant Natural Park de Chiang Mai ainda cuida de 450 cães, 200 gatos, 60 búfalos e 50 vacas em situações de risco, doenças ou abandono.

 

A história de Jokia

No Elephant Nature Park (ENP) cada elefante tem um nome. Tem uma família. Tem seu grupo de relacionamento e, acredite, tem até ‘nanny’ (que, geralmente, são as elefantes mais  velhas que cuidam dos recém-nascidos, uma espécie de tia-babá que ajuda as mães neste processo).

Todos eles, porém, também tem uma história por trás do andar cadenciado em meio a uma vida quase normal. E estas histórias, que marcaram a alma destes animais, acompanham seus passos, sendo, em regra, tristes e dolorosas.

É o caso de Jokia. Nascida em 1960, ‘Olho do Céu’ – como seria a tradução do seu nome para o  português, foi resgatada pelo Elephant Nature Park em agosto de 1999 depois de passar boa parte da vida trabalhando no comércio ilegal de madeira, onde era submetida a uma carga horária abusiva.

Nesta atividade, Jokia, em meados da década de 90, sofreu um aborto espontâneo quando puxava madeira numa montanha. Seu bebê nasceu e rolou morro abaixo. O dono de Jokia, contudo, não permitiu que ela parasse o que estava fazendo para verificar se o filhote estava vivo ou morto. O episódio deixou Jokia física e emocionalmente perturbada; e ela decidiu não voltar ao trabalho. Empacou ali mesmo, e ficou.

Resultado: deliberadamente seu proprietário a castigou, deixando-a a cega de um olho. Tempos depois, Jokia foi vendida  para outro explorador, e como também não respondia de forma eficiente às ‘necessidades’, foi mais uma vez penalizada, ficando cega do outro olho (por castigo), quando finalmente foi resgatada.

Hoje, apesar da limitação, Jokia consegue se movimentar e andar pelo Park com confiança e desenvoltura com a ajuda dos demais elefantes. No começo de 2016, porém, a dócil ‘Olho do Céu’ teve mais um baque, com a  morte de sua melhor amiga, Mae Perm – com quem iniciou a fraterna relação no mesmo ano em que chegou ao ENP, em 1999. Elas tinham, até então, a mais longa amizade de todo o complexo.

A morte da parceira fez com que Jokia ficasse por semanas girando solitária, sem querer comida ou bebida. Mas, como estes animais são essencialmente sensíveis e sociáveis, Navann (que significa ‘ouro’, em cambojano) – um jovem elefante de apenas 4 anos – se aproximou da grandalhona, numa espécie de retribuição pelo cuidado dispensado a ele anos antes, quando Jokia e Mae Perm ajudaram na condição de ‘nannies’, a mãe de Navann, Sri Pean, a tomar conta do pequeno nos seus primeiros meses.

Essa é a história de Jokia, mas também representa dezenas de outras, como Mae Jan Peng (com seus 73 anos e 3 bisnetos), Saza, Hope, FaaSai, Medo, Lucky, e outros animais que estão tendo a oportunidade de viver em paz, em meio à natureza, com comida farta e na companhia de novos e velhos bons amigos.

Viu?, você não precisa montar num elefante para se emocionar com ele.

 

Curiosidades sobre os elefantes

É fácil identificar se estamos diante de um elefante africano ou asiático. Entenda as diferenças e conheça mais a respeito destes animais:

– Os elefantes da África (nome científico ‘Loxodonta africana’) têm as orelhas na forma do próprio Continente Africano, enquanto seus parentes asiáticos (Elephas maximus) tem as orelhas menores e num formato mais arredondado.

– A tromba dos elefantes, com seus cerca de 100 mil músculos, é primordial. Por ali eles levam comida à boca (até 150 kg por dia –  ervas, frutas (banana, abóbora e melancia são as preferidas), cana de açúcar e gramíneas) e sugam a água para depois despejar no bocão (até 14 litros numa única vez, chegando a quase 100 litros num dia). A tromba serve também como estereótipo social, para ‘apertos de mãos’ e, ainda, auxilia a farejar de tudo, de ameaças à comida (eles conseguem saber se tem alimento ou água a 5km de distância). Os elefantes africanos têm algo como ‘dois dedos na ponta’ da tromba, que servem de pinça; já os asiáticos tem apenas ‘um dedinho’. A tromba, durante o ‘nado’ também é usado como tubo de respiração.

– Enquanto a cabeça dos elefantes asiáticos (incluindo aqui os indianos) tem ‘dois domos’, a dos africanos tem apenas um.

– Em regra, os elefantes africanos são maiores e mais pesados – podendo alcançar até 4 metros, pesando 7 toneladas; contra cerca de 3 metros dos asiáticos, com 5,5 toneladas. A cabeça (e o cérebro) dos elefantes asiáticos, contudo, é maior. Na Tailândia, eles brincam que, por isso, os asiáticos seriam mais ‘inteligentes’.

– Os pés (patas) dos elefantes são arredondados. Enquanto os africanos tem 3 unhas nos pés da frente e 4 nos de trás, os asiáticos tem 4 unhas nos pés de trás e 5 na frente.

– O período de gestação de ambos é semelhante, e varia de 18 a 22 meses. O longo período de gravidez mostra o quão importante se faz a preservação da espécie. Interessante observar que os ‘bebês’ nascem com cerca de 90 kg e já conseguem caminhar e encontrar a mama para se alimentar (eles bebem leite) no primeiro dia de vida. Apesar da precocidade instintiva, é comum que a mãe acompanhe o filhote até que ele atinja condições de se tornar independente, lá pelos 4 ou 5 anos de idade. As fêmeas, alias, andam em bando – liderado pela matriarca (que é a mais ‘velha’ da turma).

 

Curiosidades gerais Puro segredo

Além de emitirem sons audíveis, e bem interessantes, os elefantes também podem se comunicar  por infrassom, inaudíveis aos humanos.

 

Ajudam o verde

Os elefantes exercem importante influência nas selvas e savanas, auxiliando na manutenção de árvores e arbustos, permitindo que a pastagem predomine e o ecossistema siga ‘equilibrado’.

 

Lento?

Andando a passo normal, um elefante ‘caminha’ a uma velocidade de 3 a 4 km/h. Na corrida, pode alcançar até 40km/h. Nada mal para um ‘gordinho’.

 

O cobiçado marfim

Boa parte das mortes de elefantes na África (uma a cada 15 minutos, em 2015, segundo organizações protetoras dos animais) se dá devido à comercialização – hoje ilegal – do marfim, que rende muita grana para caçadores, contrabandistas e empresários do ramo. O cobiçado material nada mais é do que o par de dentes incisivos deles. Nos africanos, há presas que passam dos 2 metros de comprimento (podendo chegar a 3m) e que pesam entre 70 quilos ou mais. Nos asiáticos, apenas os machos as têm.

 

Machos isolados

De temperamento mais agressivo, especialmente no período reprodutivo (com a testosterona na cabeça) os machos se tornam imprevisíveis e perigosos. Talvez por isso, vivam isolados. Por ano, 400 pessoas são mortas por elefantes no globo – 90% delas após invadirem o habitat dos animais.

 

Banho de lama

Além de passarem mais de 2/3 do  dia comendo, ou procurando por comida, os elefantes adoram um banho de lama; e não é apenas para se ‘sujar’ que eles fazem isso. O barral serve como protetor solar e afasta os insetos.

 

É verdade, os elefantes não esquecem

Geralmente usamos a expressão ‘memória de elefante’ para identificar alguém que seja prodigioso na arte de memorizar rostos, textos e datas – na política local, temos um caso peculiar, aliás.

A analogia faz sentido. Os elefantes marcam com exatidão outros animais da espécie e também os humanos – sejam aqueles que os tratam bem ou mal. Caso recente registrou, nos EUA, o reencontro de dois elefantes 20 anos depois de terem compartilhado alguns meses de convívio. O pesquisador responsável disse que nunca havia visto nada tão intenso entre animais daquele porte.

 

De onde surgiu a expressão ‘elefante-branco’?

Utilizado no Brasil para designar, em regra, obras públicas desnecessárias ou que importam em grandes gastos e pouco retorno, os ‘elefantes brancos’ teriam sido encontrados pela primeira vez  no antigo Sião, hoje Tailândia. Por serem raros, os animais eram tratados como deuses na cultura tailandesa. Ocorre que, além de belos, eles eram, de fato, muito dispendiosos ao rei – a quem eram oferecidos, por sua importância e distinção.

Assim, quando o rei tinha a intenção de penalizar algum súdito ou subalterno por ter ‘pisado na bola’, ao (in)feliz era concedido o privilégio de ser o novo dono de um elefante branco – o que, invariavelmente, levava o contemplado, que não poderia se desfazer do ‘mimo’, à falência

 

 

Números que assustam

Antes da colonização europeia na África, existiam cerca de 20 milhões de elefantes nas savanas, segundo estimativas científicas. Esse número caiu para 1,3 milhão em 1979. Agora, o mais abrangente censo já realizado sobre a espécie pinta uma realidade ainda mais aflitiva: atualmente, restam apenas 352.271 elefantes-da-savana nos países estudados. Mantido o ritmo atual de declínio, de 8% ao ano, em 2025 serão apenas 170 mil elefantes, o que torna a extinção local praticamente certa.

(Fonte: Revista Exame).

 

Salus Loch / JBV Online

 

 

 

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